O vinho da classe média azedou

Não sou habitué de manifestação. Já li muito sobre manifestações menos ou mais populares: inconfidência mineira, revolta dos mascates, revolução praiera, comuna de paris, revolução bolchevique, guerra civil espanhola, revolução sandinista, maio de 1968, revolução de veludo, revolução dos cravos, diretas já. Foram muitos livros a respeito e pouca presença nelas. Não sou habitué de manifestação. Filho da classe média.
Filho da classe média usa mais de uma língua quando se expressa. Filho da classe média tem vinte e poucos anos como a música do Fábio Júnior cantada pelos Raimundos (ou seria a do Belchior cantada pelos Los Hermanos?). Filho da classe média tem mais semestres de estudo que a classe média. Filho da classe média faz uma ou outra viagem. Filho da classe média usa computador com internet banda larga pra acessar as redes sociais. Filho da classe média adora vinagre. Filho da classe média, se puder, compra vinagre balsâmico.
Se puder.
Seu outro idioma é um inglês travoso na boca. Sua idade pode não corresponder a seu gosto musical. Seu emprego divide espaço com os anos de estudo que, afinal, são numa universidade — quiçá gratuita, oxalá pública. Sua viagem é uma visita à vó no litoral, aos pais no interior ou às tias nas bordas da região metropolitana. Seu computador de gerações passadas pode não ser muito eficiente na conexão com a rede que acessa. Seu vinagre é branco ou marrom em garrafas de plástico.
Filho da classe média gosta de vinagre.
Filho da classe média, segundo o último relatório da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, vive numa família cuja renda média mensal vai de R$ 1540 a R$ 4845. Ainda segundo o levantamento federal, capitaneado pela “Comissão para Definição da Classe Média no Brasil”, filho da classe média vive em grupos familiares que representam mais de metade do total brasileiro desde 2009.
E filho da classe média adora vinagre.
Não o vinagre balsâmico. Esse aí pode ultrapassar os cem reais. Esse aí é feito com vinho tinto passível de receber todos os paparicos da bebida, de envelhecimento em barris a tratamento em temperaturas várias. Não bastando, esse aí carrega o bendito nome. Bálsamo conserva da putrefação cadavérica, cheira à perfume e abranda os ânimos de quem o inala.
Mas filho da classe média ama vinagre branco ou marrom em garrafas de plástico!
Esse nada tem que ver com mortes, fragrâncias ou falta de ânimo. Esse é sua única proteção contra os efeitos do gás lacrimogêneo — muito embora a Associação Nacional das Indústrias de Vinagre não aponte tal função em seu site. O vinagre em água borrado no pano é o escudo fisiológico ante a violência nacional estatizada — até segunda ordem de privatização. O títere dessa instituição? As forças vigilantes brasileiras cujo destaque óbvio ululante é a PM.
Na quinta-feira, 13, a única polícia militar do mundo fez chover bombas e balas por sobre manifestantes que se levantavam na cidade de São Paulo. A rua da Consolação, sob a rufada de explosões, virou corredor polonês. Alto lá! Alto lá! porque num corredor se corre. Alto lá! atacava o braço armado mais nefasto dessa instituição travestida numa farda fascista que, como corporação, reproduz ordens e discursos esvaziados em cadeia. Parados em nome da lei!
Desde a Maria Antônia — a mesma que vira outra batalha há algumas décadas — a tropa de choque encurralava manifestantes em quadras de nomes plácidos: Bela Cintra, Matias Aires, Paulista, Angélica. Acuava quem quisesse falar, gritar, se esgoelar contra o status quo. Recuava o direito à liberdade de expressão tão propalado na democracia que mais parece ser os outros. Cu. De deixar com o cu na mão. Ninguém é super-heroi para enfrentar essa polícia de peito aberto homem de aço. Sozinho, certamente não.
Ó, que filho da classe média teve de baforar vinagre que nem moleque de rua bafora cola.
Mas filho da classe média não é moleque de rua. Moleque de rua só algum deus sabe o que tem. Filho da classe média, repito, tem livros, smartphone, tempo, oportunidades, direitos e deveres. E filho da classe média deveria se importar com esses pivetes? Digo mais: deveria se importar com vinte centavos? Não anda nem de ônibus. Deveria lá fazer bagunça por causa desses trocados? Me poupe.
Ora, se há livros lidos, que a teoria seja posta à prova. Se há smartphones nas mãos, que eles gravem o que se passa à frente. Se há tempo de sobra, que ele seja o resto que faltava para protestar. Não se trata de capricho romântico. Existe uma obrigação moral e solidária em se voltar contra o Estado que acaçapa seus contribuintes, nos impostos ou no transporte público atravancado das metrópoles. A obrigatoriedade tácita nasce em motivos que vão dos mais pragmáticos aos mais idealizados.
Essa ética que rompe o cotidiano engrena a ressurreição do banditismo há muito esquecido: a sedição. Ela é gregária ao passo em que é repelida pelas forças governamentais cujas ações desmedidas já são leit-motif das periferias. Tal setor — incansavelmente afastado das decisões e benesses da ágora política e vítima de um sistema esgotador e compulsório — pode se ver naqueles que pisam o asfalto com palavras e bandeiras de (des)ordem.
Esse espelho é tão importante quanto a ausência de uma ideologia esclarecedora no motim, ainda que permeiem ideologias e panfletismos. Se a reação policial é, de um lado, ponta de um processo violador perpetrado pelo Estado, a revolta pelos vinte centavos é, de outro, o estopim daqueles que não aguentam mais sentir tais violências sociais. Explode, portanto, a identificação horizontal regida pelas aspirações comuns do povo.
À reboque, embora devesse ser o rebocador, a imprensa sinaliza retomar seu papel primeiro na peça como mediadora entre os poderes num ringue onde a vontade popular deveria ser a única privilegiada. O tempo dirá o quanto esse resgate bebe na demagogia para venda de exemplares ou no ataque às liberdades e à integridade de jornalistas que, vendo-se achacados pelo Estado e observados pelo povo, nada podiam fazer senão retirar as mordaças impostas por um modelo de negócios que já caduca na sua força-motriz de publicidade, interesses e lucro final.
E se tem operários-escribas colocando seu insalubre emprego em jogo; se tem gente que se identifica com a causa mas não consegue ou não pode se manifestar; se tem quem precarize o verdadeiro direito de ir e vir e ainda queira torná-lo mais caro; se tem quem reprima violentamente protestos pacíficos; se tem um aparato estatal moribundo que não corresponde aos anseios de sua população, filho da classe média, quê tem você?
Tem mais é que sair pra rua. Engrossar o caldo. Fazer entornar. Com vinagre e tudo. Parar a cidade que não para. Sem parar. Porque não tem só você, filho da classe média. Tem estudante (,) trabalhador (,) universitário (,) desempregado (,) incomodado (,) cidadão. Sem artigo de gênero. Sem definição. Sem vírgulas. Parando sem parar.
Foals + Biblioteca + Paris

Os caras da Blogothèque só mantem o nível.
Dessa vez eles colocaram o Foals na biblioteca da prefeitura de Paris. Em seguida eles gravaram a banda tocando. Quebrando o silêncio quando vale a pena.
Tragamos o Beach Fossils pro Brasil

Tem forma verbal mais feia que o imperativo da primeira pessoa do plural?
Que sejamos. O Beach Fossils quer vir pro Brasil e depende de um crowdfunding pra acontecer. O show está marcado pro mês de julho em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Por aqui será no Espaço Cultural Walden, na República.
O ingresso reembolsável sai por 87 dilmas. Justo.
Reflita sobre o tema ouvindo uma das novas dos caras.
O toe quer tocar no Brasil
Sabe-se lá porquê, o toe, incrível banda japonesa de post-rock, teve de parar em São Paulo quando a caminho do Chile. No Facebook eles lançaram a pergunta abaixo.

Que alguém leve a sério a brincadeira, porque parece mentira os caras terem ido justo pra Liberdade.
Enquanto isso, toe.
Update: aparentemente eles tiveram de parar no Brasil; segundo o Instagram, eles estão mesmo é na China. (Dica do Sérgio Berkenbrock); até agora, nada de respostas da banda pro blog.
E antes da nova música do Daft Punk…
O Black Sabbath lança essa martelada num quase retorno da formação original depois de 35 anos (!!!).
Nove minutos que podem demorar a engrenar, mas vêm com solos, compassos quebrados, linhas de baixo versáteis e marretas de Brad Wilk — ex-RATM. Poderia encaixar um pedal duplo aí, mas talvez descaracterizasse o som que não engana a origem: os inventores do heavy metal.
Daft Punk lança, pra valer, o single “Get Lucky”

Caiu na rede, finalmente, a versão oficial da primeira música de “Random Access Memories”, quarto álbum do Daft Punk. A bem da verdade, a versão para rádio, menor do que a gravação para o álbum.
Na canção a guitarra beliscada de Nile Rodgers e o falsete sobreposto de Pharrell fazem a assinatura disco. O groove e o funk estão por conta dos robôs Daft Punk na bateria acústica, aquele instrumento que veio antes das baterias eletrônicas, e no baixo de ataques grudentos, feitos pra preencher. Coisas de um tempo romântico da música em que instrumentistas deveriam segurar notas incansáveis para um pista tampouco monótona.
Hoje os tempos são tão outros que a música oficial realmente parece com algumas versões falsas que pintaram por aí. Por isso tem muita gente decepcionada com o que ouve. Independente da qualidade, a surpresa ficou pra trás.
A galera é apressada.
O disco só sai daqui a cinco semanas. Calma.
PS: O Pharrell limpo fica devendo um bocado ao Romanthony filtrado por moduladores, hein.
Por que precisamos do Daft Punk?

Que chatice quando alguém mede sua biblioteca musical por gigabaites. Baita chatice. Versão computadorizada do complexo freudiano em que virilidade e tamanho do carro supostamente se refletem. Seria uma reprodução pós-internet desse machismo-alfa (ou beta, se ainda em teste) ?
Essa SUV de GBs — grande, espaçosa, folgada e, vai saber, interessante em alguns momentos — fica estacionada nos HDs. Quanto maior a capacidade de armazenamento, melhor. Pobres galpões virtuais com vocação pra mobília de antiquário digital. O disco rígido torna-se, bit a bit, fóssil duro frente à nuvem fluida, acessível em qualquer dispositivo conectado à internet.
Por baixo da colcha tecnológica a RAM segue. Ao contrário do HD, ela não tem compromisso com a alocação de espaços por tempo indefinido. Ela serve ao que for necessário. Recupera softwares, aplicativos e plataformas assim que acionada. Passam por ela arquivos JPEG, MP3, AVI e toda sorte de extensão que precise ser reproduzida como foto, música ou filme. Do trabalho de escola guardado há anos ao webapp que roda direto do navegador. A importância da RAM passa pelo poder de fluxo de informações independente de tempo ou ordem, sem o qual seriam impossíveis boa parte dos dispositivos eletrônicos que usamos hoje.
RAM: Random Access Memory.
Memória cultural
RAM: Random Access Memories.
O quarto disco do Daft Punk quase tem nome de peça de computador. Dele sabe-se mais a lista de músicas, depoimentos de alguns artistas participantes, uns trechos de uma canção e data de lançamento. São dados suficientes, espaçados e nada sequenciais que permitem vislumbrar a importância do álbum como rompante de um estado atual da música popular.
Uma máquina especializada em Big Data — a próxima ciência positivista da computação — talvez pudesse fazer essa previsão rastreando tudo que perpassa o universo de Thomas Bengalter e Guy Manuel de Homem-Christo. Essa máquina ainda não existe. O que existe são os robôs em que os dois se transformaram num acidente de estúdio em 2001. O tipo de mentira que, de tão repetida, chega a ser verdade.
Os ciborgues escolheram RAM para nome do seu próximo disco. A RAM não é um processador superpotente que minera BitCoin e gasta quilos de energia. Tampouco é um ábaco pra contar pontuação de mesa de sinuca. A RAM é uma peça que vem de um incerto passado, então informática, e vai a um futuro certo de tecnologia demasiada zero-e-um, sem chance ao erro. Mantem-se viva dando vida ao que conhecemos pelas interfaces digitais.

O devaneio ciberpunk reside na própria existência de artistas como a dupla francesa. Travestidos de robôs, eles antecipavam já nos anos 90 o nosso futuro-presente biônico. Os dias em que o Google Glass começaria a dar as e nas nossas caras e conglomerados mundiais brigariam para enfiar transistores e redes sociais em itens do vestuário — não sem antes pensar em como retirar informações de seus usuários ou como lhes enfiar propagandas veias adentro. Quem disser o contrário que largue agora o smartphone.
Mais ciborgues ainda, eles subvertem a ordem de uma tal antropologia tecnológica. Em vez de subsistir em vitrines conectadas a um perdido sistema de produção que fabrica ídolos a partir de pessoas pouco talentosas, o duo faz uma trajetória particular: conserva, junto da capacidade de criação, identidade e calma. Virtudes aos sábios. Aos olhos, rostos pouco conhecidos que, nesse tempo, valem tanto quanto ele próprio — ponha aí quatro anos de produção do álbum.
Ponha também o barulho que se tem feito em torno do disco ainda a um mês de seu lançamento oficial. As músicas de Random Access Memories são conhecidas por duração e, algumas, por nome. Não foram disponibilizadas para um blog que se gaba da quantidade de visitantes — ao menos não até agora. Também não houve première para revista resistente — ao menos, novamente, não até agora.
O disco vive. Uns minutos dele já chegaram aos ouvidos do mundo na canção “Get Lucky”. Dois comerciais na TV norte-americana com cara de videoclipe, afinal, Television Rules The Nation. Um único teaser num dos maiores festivais do planeta, o Coachella. E, claro, um sem fim esperado de reproduções disso tudo na internet. Seja um golpe orquestrado nas salas de reuniões da Columbia Records, ainda que difícil de acreditar, o touché saiu dos punhos da dupla — e eles acharam graça.
A guerra cirúrgica de divulgação vai fazendo muita gente salivar por aí. O povo anda com fome de sustância, comida que a frenética cena EDM não entrega com seus previsíveis clímaces e quedas entremeados por indistinguíveis texturas.
Nesse vácuo sedento, apesar da água na boca, uma enxurrada de produções é atribuida a Bengalter e Homem-Christo. A brincadeira séria do fanzine renasce em áudio com meios de produção musical disponíveis em notebooks. No Daft Punk, o jogo fica ainda mais curioso pela quantidade de participantes. Numa ponta, a mídia global feito cachorro que caiu do caminhão em dia de mudança. A rádio francesa FUN foi a bola da vez. Nesta segunda ela divulgou a suposta versão completa de “Get Lucky”. Na verdade, tratava-se de uma colagem com trechos da música feita por um fã — o que desencadeou uma onda de ódio à emissora.
(Em tempo: perdi a conta de quantos blogs por aqui caíram na armadilha.)
Sabendo desse frenesi global, a revista francesa Tsugi protagonizou um outro caso que vale menção. Ano passado, a publicação divulgou uma nota a respeito de uma suposta nova música do duo. Chamada “Renoma Street”, a faixa não existia. Ao menos até a edição chegar às bancas. Dali em diante bastou uma semana para veículos do mundo inteiro prosseguirem a espiral alimentados por um notável interesse público pelos robôs do hexágono. E surgiram ene versões de “Renoma Street”, uma grande piada da Tsugi.

Aí vem a outra ponta do tabuleiro: os produtores e compositores que assinam Daft Punk. O arremedo de bondade é mais para si que para os donos do também pseudônimo. Ter a chancela do duo em uma composição é um passo meio torto para o sucesso, mas é um passo. Do Beatport ao Soundcloud, é uma selva lá fora. Há quem compre cliques e fãs nessas redes numa extensão da popularidade que determina relevância no showbiz. Pegar rabeira no duo francês não é tão mal assim, então.
Não é tão fácil, também. Antes fosse só acompanhar o rastro de LED deixado por Bengalter e Homem-Christo. A tarefa é mais difícil que realizar colagens em estúdios siinônimos de quartos de hotel e saguões de aeroporto com maquinários restritos a um MacBook com Ableton Live. O não-lugar, sua impaciência e suas bases fracas resultam em pastiche ao passo que tomam espaço da tão propalada verdade dos, veja só, robôs: é preciso por alma na música eletrônica.
Memória musical
“[O Daft Punk] volta ao passado para avançar ao futuro”. A declaração, feita por Nile Rodgers, está em um dos vídeos da série “The Collaborators”, dedicada à divulgação do novo álbum. O mentor do Chic se juntou aos franceses na composição de algumas faixas de Random Access Memories. O fato, além de um merecido retorno aos holofotes, lhe rendeu a elucidativa frase. Rodgers parece ter capturado com sabedoria o que se passa nas mãos e CPUs dos ciborgues. Se há alguma sequencialidade na RAM do Daft Punk, ela reside no constante estágio seguinte da postura anacrônica e diacrônica que, pelo esforço dos artistas e pela natureza tecnoeletrônica, destitui e mescla referências — seja no futuro, presente ou passado.
A posição de Rodgers é privilegiada. Em 1979 ele criou o que seria a primeira base bem sucedida do hip hop. Good Times é parte de uma reação em cadeia nuclear na gênese dos robôs do Daft Punk. A canção estreou em Risque, álbum do mesmo ano cuja capa tem um senhor Chic mal-encarado metido a gangster em frente a um tecladista morto. Velório de uns, nascimento de outros, foi sobre a linha de baixo entrecortada pela guitarra de Rodgers que surgiu Rappers Delight, clássico do Sugar Hill Gang.
Dois anos mais tarde o grupo invadiria o SoulTrain, pedra-chave da TV para a comunidade negra dos Estados Unidos. O hip hop começava a se institucionalizar na sua forma básica: uma célula rítmica e melódica como sustentação para a prosódia. O DJ avançava a tradição trazida da Jamaica e, além de mestre de cerimônias, tornava-se chefe de obras do gênero. O cimento disso era o sample.
Mais acima, em Chicago, a música negra seguia seu caminho eletrificado. A house music embrionava em clubes locais utilizando, também, samples grooveados pontuados pelas recentes baterias eletrônicas (destaque para a Roland TR-808). O gênero era o passo seguinte a experimentações de caras como Lerry Levan, Vernon Bucher e Giorgio Moroder — italiano que também participa do novo álbum do Daft Punk e é responsável, entre outras coisas, pela faixa “I Feel Love”, de Donna Summer, e pela trilha sonora de Scarface, cuja sonoridade sintética ajudaria a moldar outros filmes entre os 70 e os 80.

Esse caldeirão transbordante respingava sua mistura para o outro lado do Atlântico. A música norte-americana refazia seus passos na Europa sem a negrofobia de alguns setores dos Estados Unidos entre 1970 e 1980. Na Alemanha, as frauleins estavam na linha de frente da operação dance. Na Holanda, surgia o Boney M e seu groove de butique. Na França, não menos diferente, a disco encontrava celeiro. Claude François, equivalente a um Simonal do hexágono, atacava com sua versão mambembe das orquestrações da Motown.
Para o francês, especialmente, o gosto pela disco music representava a busca de uma alternativa balançante comparada ao cancioneiro tradicional — mesmo se não fosse no seu próprio idioma. Além de François e do grande Gainsbourg, ganhavam notoriedade no gênero nomes como Sheila e Ottawan. Ambos foram produzidos por Daniel Vangarde. O nome não diz, mas o sangue não mente: Vangarde é pai de Thomas Bangalter.
Ainda garoto, Bangalter já recebia influências que lhe seriam patentes em toda sua obra ao lado de Homem-Christo. A juventude só ratificou esse pacote norte-americano sobre a França que se renovava na expansão do house, crescimento do techno e nascimento do eletro — ao contrário da produção quase egocêntrica da Itália, resultante na EuroDisco. O gosto pelos gêneros de além-mar era tanto que o duo se conheceu em uma boate parisiense — e anos mais tarde fariam trio com o guitarrista do Phoenix, para não passar batido pela fase roqueira juvenil que também lhes serviria de influência.

O som que tocava nessa tal balada? Provavelmente algo mencionado na faixa Teachers, do primeiro álbum dos caras. Quem sabe até George Clinton, mestre do funk psicodélico do Parliament que, além de ser lembrado na faixa, é sampleado no clássico DaFunk. Ambas as faixas, de 1997, já apontavam o caminho tomado pelo Daft Punk: a volta ao passado para retornar ao futuro. A mesma volta e o mesmo retorno dito por Nile Rodgers em 2013.
A esquizofrenia dessa investida é tanto quanto genial e prolífica. Antes fosse apenas nadar em oposição à corrente sob a luz de uma contra-cultura. Trata-se de pinçar referências sofisticadas independentes de estilo — rótulos são um infeliz norte na cena pulverizada em gêneros e hashtags — e trazê-las para uma criação que revive a aura dançante, divertida e colorida da música eletrônica em essência. Ou em espírito, soprado pelos robôs Daft Punk numa música de bits e bytes. Não soa como nostalgia. Soa como futurista. É um projeto vanguardista na medida do seu alcance e do seu modo de fazer.
Não deixa mentir toda a cena house, eletro e, nos últimos anos, nu-disco estabelecida na música francesa. O Justice é cria quase que direta com seus arpeggios e guitarras progressivas, típicos da música “Voyager“. DJs e produtores como Cherokee, Louis La Roche e Kartell estão na ponta de lança das influências. Selos como o Shiny Disco Club e o Kitsuné são guarda-chuva dessa herança. A semente foi deixada pelo Daft Punk e por outros artistas como Cassius e Stardust, cujo maior sucesso tem participação dos ciborgues.
Acontece que o duo francês voltou a visitar sua caverna do Alibabá e no próximo álbum seguirá tirando pedras preciosas dali. O que escapou de Random Access Memories até agora dá pistas disso.
No primeiro clipe, com um minuto do que deve ser o single “Get Lucky”, aparece um Nile Rodgers empunhando guitarra, um Pharrel cantando e dois robôs tocando baixo e bateria. A cena, pouco comum para o que se espera de artistas de música eletrônica, já faz parte da produção da dupla Bengalter e Homem-Christo desde Discovery, segundo disco. Em entrevista à revista britânica Remix, em maio 2001, o duo revelava o gosto que tinha por instrumentos orgânicos soando como sintéticos — e vice-versa. “[Em Discovery] há guitarras que soam como sintetizadores e há sintetizadores que soam como guitarras”, afirmaram.
À época eles já eram ponto fora da curva utilizando baterias eletrônicas alternativas às queridinhas Roland TR-808 e 909 — as mesmas da época do Sugar Hill Gang. Os vocoders e uma espécie de Autotune mais primitivo também faziam parte do repertório. Ainda no segundo álbum, a célebre “One More Time” ganha a voz filtrada do norte-americano Romanthony. No terceiro disco, a faixa “Emotion” se disfarça bem como evolução do primeiro computador que cantou, o IBM 7094, ou como antecipação de outras máquina quase falantes, os robozinhos EVE e Wall-E da Pixar.
Nesse mesmo disco, “Human After All”, a faixa “Robot Rock” recupera o potente riff de “Release the Beast“, do funk lado-B do Breakwater. O duo usa a célula como cama recortada para um crescendo poderoso da letra-título. Ela é entoada, é claro, por uma máquina com voz humana. Se uma se repete, a outra não. O que poderia ser considerado como sample exaustivo ganha tons e quebras nas mãos do Daft Punk. “Música eletrônica é sobre criar novos sons que sejam empolgantes”, disse a dupla à mesma revista Remix.
É a ideia contida na declaração sobre a crise que vive a EDM. A zona de conforto em que ela se ancorou, segundo os dois franceses, não se renova na mesma proporção do que a faz possível: a tecnologia. Até a memória RAM parece ter evoluído mais nesse tempo. O cenário se estende a boa parte da música pop que, se nos 90 flertava com os DJs, nos 2000 namorou com eles e nos 2010 realizou uma união civil — burocrática, barulhenta e previsível, como alguns casamentos. Não à toa o próximo disco do duo será lançado ao vivo durante um festival na Austrália, terra que tem dado à luz sonoridades mais interessantes como a do Cut Copy.
O retorno do Daft Punk, marcado para 21 de maio, promete ser, novamente, uma outra proposta à modorra. Uma posição diferente que não se restringirá a círculos alternativos ou underground. Mais do que músicas feitas para dançar, melodias nostálgicas, roupagens futuristas, novas texturas sonoras, efeitos visuais impressionantes, disco feito para ouvir de ponta a ponta e aguardado como evento; mais do que tudo isso, Random Access Memories tem a promessa de sacudir o status quo da música eletrônica e pop global em vários níveis. Por conta de tudo isso.

Senão, ao menos será um novo disco do Daft Punk. Precisamos dele.
Notas sobre o Lollapalooza 2013
- Alôllapalooza. Todo mundo vivo e limpo pós-segunda edição do desfile campal de bandas por São Paulo?

- Quarta-feira de cinzas. A lama do Joquei Clube virou poeira, a poeira subiu e agora já baixou. Muito se falou sobre o festival entre sexta, quando começou, e segunda, quando iam para casa em procissão o séquito de Eddie Vedder. Nesse tempo, coberturas saindo pelo ladrão: matérias de serviço, resenhas cabeçudas e cabecinhas, vídeos (do Multishow pro Youtube logo ali) e fotos de bandas, de pessoas, de musas (a editoria de esportes ajudou o pessoal da cultura?).
- O velho moleque Marcelo Rubens Paiva desenhou bem o grosso do lineup internacional do Lollapalooza 2013:
O que tem de melhor no novo e velho rock veio, Two Doors, Queen of the Stone Age, Kaiser Chiefs, The Hives, Hot Chip, fechando com Pearl Jam! Enquanto isso, no Rock in Rio…
- Enquanto isso no Rock in Rio (a relação custo/benefício é pouco interessante)… E São Paulo, ainda como ele bem disse, cada vez mais parece com a cidade do Blade Runner. Ou seria a cidade mais decadente ainda do Neuromancer?
- O Lollapalooza caberia nas duas. É um festival barulhento nascido na Chicago do Smashing Pumpkins e da House Music. E houve quem fizesse jus a isso sobre os palcos dos últimos dias.
- O Two Doors Cinema Club fez show pra pular. Não tem tutano pra erguer braços com dedos indicadores e mínimos em riste. Nunca teve. Por isso o público criado com os acordes tropicais e caixas entrecortadas de “Something Good Can Work” lidou tão bem com a banda. O quarteto irlandês tocou na medida das gravações. Suficiente para empolgar mesmo quando apresentavam músicas do novo álbum, com andamentos menos Arctic Monkeys e mais britpop eletrificado.

- Quem poderia sair nessa tangente — por desempenho, não por composição — seriam Kaiser Chiefs e The Hives. Conhecidos de outras apresentações, os caras resolveram não economizaram dessa vez. Os britânicos sabem a arma que tem com seus versos fáceis de cantar. Talvez por isso o vocalista Ricky Wilson tenha corrido tanto pelo palco enquanto inflamava o público.
- Os suecos também sabem o poder da língua. Pelle Almqvist se esforçou um bocado pra sair do “Obrigado” em português quando no palco. Ao largo disso, a apresentação pegada dos caras foi uma surpresa a quem julgava a banda menor que outros headlines. Além da atuação performática, merece louros também o baterista Chris Dangerous, versátil nos ataques e escolhas no instrumento.
- A média, felizmente, já fora quebrada horas antes com o Foals. A banda vem num crescendo de três álbuns culminando em faixas sofisticadas com apelo. Prelude, abre-alas do último disco, conta essa história e também abriu a apresentação no Lolla. Os caras largaram a pecha Math Rock e caíram de vez no experimentalismo. De vez não, porque ele é comedido em guitarras angulares e disco punk que tem colado nos últimos anos.
- Além disso tudo, foi o show com uma taxa impressionante de três ruivas por metro quadrado (carece de fontes).
- O que os britânicos do Foals botaram à prova não passou pela cabeça do Black Keys. O risco ali, quando muito, ajudou o grupo a sair do regular. A burocracia de guitarra em riffs delta blues e bateria abafada era rompida por ápices criativos do duo auxiliado por baixo e teclado, presentes com relevância em “Lonely Boy” e “Gold on the Celling”. Não à toa o destaque pra essas faixas: levam o selo de hit com propriedade e vão muito bem ao vivo. Outrossim, deu a cara tapa a peleja quase trovada “Little Black Submarines”. As viradas rítmicas e o solo naipe classic rock foram um respiro num show que, senão metade normal, foi metade do que poderia ser.
- Essas coisas engraçadas desse tal negócio a que chamamos arte: as quatro bandas ali de cima poderiam estar num balaio só de gênero-genérico, mas quem quase levou o papel colado nas costas foi a que, diz-se, fugia desse cesto.
- E aí um bom motivo para ter se invertido a ordem do dia (falamos do sábado): QOTSA merecia fechar a noite.
- Se Josh Homme e amigos surpreenderam? Não. A resposta pode ocasionar um apedrejamento virtual, mas é prudente ler com calma. O Queens Of The Stone Age não surpreendeu porque já se esperava, ao menos, uma apresentação de peso. Isso é um tremendo Às de Espadas na manga de Homme, mentor artístico do grupo que tem imensa rotatividade.

- No palco do Lolla a banda desenhava com linhas grossas faixas clássicas como “Go With The Flow” e “No One Knows”. A cozinha se enfraqueceu em marretadas e se reforçou em velocidade com Jon Theodore (ex-Mars Volta). Um pelo outro, ela sustentou riffs que ano após ano confirmam sua psicodelia em novos bends e distorções sutis. Um show de menos vigor se comparado a outras passagens da banda por aqui, com a desculpa de que Josh Holmes fez (1) a barba, (2) mais aniversários e (3) a parceria com Florence Welch.
- Agora pausa na fita rebobinada e avança pra domingo a noite. Quem quisesse mais pancada precisaria passar pelo Foals-Hives-Chiefs vespertinos em direção ao noturno Planet-ML-Hot Chip. (Quanto ao Pearl Jam, os grandes falam por eles.)
- Prefácio: colocar esses três nomes tocando ao mesmo tempo foi o erro com artigo definido do festival. A sinteticidade do Hot Chip conversa fácil com o Major Lazer. E esse sabe falar bem com a periferia grave de onde brotou o Planet Hemp — quem sabe os palcos, lado a lado, trocaram ares. Corra, Lolla, corra entre os shows.
- No principal, os filhos do Funk Fuckers e do Zerovinteum. O trabuco sonoro do Planet Hemp ainda causa estrago. Moshpits, circle pits, rodas de pogo, bate-cabeças: todos sintomas de uma mesma doença não necessariamente atrelada ao consumo da maconha e certamente causada por uma apresentação de respeito. A tal Raprocknrollpsicodeliahardcoreragga.

- D2, Bnegão, Formigão, Pedrinho e Rafael representam, anos após o fim oficial do grupo, a o coquetel molotov mais explícito e político que a música brasileira pôde produzir entre os anos 1990 e 2000. Não se trata apenas do discurso, um tanto caduco atualmente (o FHC que foi conivente com a prisão da banda virou o FHC pró-legalização da erva), nem do alcance, posto que a ferocidade do undergroud permanecia latente nos principais eixos urbanos. Fala-se também de forma.
- O Planet Hemp bolou hardcore com rapcore, hip hop e sonoridades jamaicanas. Black Flag, Bad Brains, Rage Against the Machine, Run DMC e toasters da ilha caribenha numa lapada só quebrando com a modorra do róque brasilóide asséptico dos anos oitenta. E no palco do Lolla tudo isso estava queimando. Deu até pra traçar um paralelo entra a gravidade das vozes de Bernardo e de MCA, dos Beastie Boys. Ou, mais ainda, entre as linhas de guitarra e baixo que viraram samples nas bandas.
- Homenagem implícita, o show dos caras foi repleto de evidências pouco esfumaçadas. Chico Science na versão de Samba Makossa. Led Zepellin já conhecido em Adoled e revisitado em Phunky Buddha. O cover adotado da carioca Serial Killer em Seus Amigos. Some aí também a excelente videografia que ia de Gil Brother a Cheech Chong passando por ultra slow-motions. Entre ou cobrindo isso, as faixas clássicas que seguem batendo na mão de caras com trinta (quarenta?) e tantos anos. Os novo vinte e poucos.
- A competição ficou difícil para o Hot Chip. Estavam lá todos os integrantes um tanto desajustados por natureza, ao contrário da sua minuciosa parafernália. O embate entre homem e máquina já deu Kraftwerk, Pet Shop Boys e um sem fim binário de outros nomes. No caso do Hot Chip no Lolla soou apenas como uma troca de afagos ou inserção de dados. A apresentação correta ousou em arranjos e instrumentação, mas foi pouco para as possibilidades oferecidas. Não que se esperasse excessos, mas mais do mesmo foi excesso igualmente. De máquina e certeza. “Over And Over” fez muito sentido.
- A questão é por onde se olha, se ouve, se cheira ou se pisa (lama ou grama, no casso do Lolla). Para o Major Lazer, o excesso é quintessência. Ali, ao lado do raggamuffin do Planet Hemp em Deisdazseis, Diplo colocava as periferias do mundo em um único pacote de bitrate duvidoso — quanto dali não é MP3 baixado do 4Shared, senhor Wesley?
- À lixeira esses fatos, a bem da verdade. O trio Major Lazer provou ser o maior caldeirão de manifestações musicais eletrônicas marginalizadas pelo sistema, mas só existentes por conta dele. Explicação-tuíte: não fossem periferia, não deturpariam as tecnologias a fim de um uso antes impensável a elas. O reflexo é o afrobeats, o moombathon, o trap, o tecnobrega e o funk carioca — com quem o Diplo já se relacionava quando muita gente ainda achava feio, na época do primeiro documentário sério sobre o pancadão.
- Na mão dos caras, música nova reverbera fácil. A tenda Perry teve “Passinho do Volante” e “Aquecimento das Maravilhas”. Daí em diante “Harlem Shake” não seria surpresa, tampouco as excelentes faixas do próximo álbum. Mas, como não cansa de trabalhar e surpreender, Diplo (ou Major Lazer ou Wesley ou produtor-de-uma-cacetada-de-gente ou ex-da-MIA) atacou na quebrada do colonizador ao fim do set. Tome 150 BPM no misto de drum’n'bass com jungle beat britânico.
- Depois dessa paulada, cabe menção honrosa ao Madeon. O moleque francês passou pelo mesmo palco no dia anterior e mostrou que música eletrônica vem de casa. Quantos botões ele aperta por minuto é difícil dizer — parece uma combinação de golpe para videogame. Fácil é dizer que o esquema funciona. E com personalidade, ainda que incipiente. Madeon acerta nas quedas e clímaxes em padrões que misturam, com sutileza gourmet, o French Touch a punhados dessa inflada cultura EDM.

- Em tempo: o Madeon apareceu nesse blog faz algum tempo, quando tinha estourado na rede. Em breve voltará como tema de um outro texto.
- Por ora o assunto ainda é Lollapalooza. Caberia, então, falar dos problemas (compreensíveis e incompreensíveis) de organização, do fuzuê causado pelas credencias de imprensa, dos valores dos ingresso. Isso também fica para outro texto.
- Que haja outras edições do Lollapalooza São Paulo, mas que o Brasil também tenha mais opções de festivais que dedos na mão.
O roadmovie onírico do Beach House

Forever Still é um roadmovie estático. O frenesi do oeste americano de Vanishing Point não cabe na fita. O movimento aqui é taciturno e dadaísta. Coisa de sonho que dura uma longa noite. Do lusco-fusco à alvorada. Imagens que formam um belíssimo par com a música do Beach House.
São quatro músicas: Wild, The Hours, Wishes, e Irene. Todas fazem parte do último e celebrado disco da banda, Bloom. Uma grande história dividida em algumas canções e poucas, porém insistentes, sintéticas e timbradas notas. Para ficar nas poucas palavras.
O show adormece nessa cama. Hipnagógico, tem cacife pra ser um dos grandes concertos do ano no Brasil. Vamos, calmamente, esperar.
Escuta Só #5: 50 músicas do mundo numa seleção francesa

O Escuta Só do dia recorre a uma dieta afrancesada com a seleção de março da revista parisiense Les InRockuptibles. Tem coisa a dar com pau, mas é de se degustar calmamente o clássico do Depeche Mode, o retorno do Strokes, a profundidade do Flume, os filtros sonoros do Kavinsky e a presença ilustre do Caetano Veloso — que se reinventa tanto quanto o andrógino primo Bowie, também na lista.



