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Máquinas na Pista: A Evolução dos Sintetizadores Musicais

29/07/2014 at 14:29

Muita gente adora exaltar a Liverpool dos Beatles, a São Francisco do Jefferson Airplane, a Detroit do Inner City, a Paris de Serge Gainsbourg, a Lagos de Fela Kuti, a Dusseldorf do Kraftwerk, a São Paulo dos Mutantes, a Kingston do Bob Marley, a Recife do Chico Science e Nação Zumbi. Difícil mesmo é ouvir alguém enaltecendo Trumansburg, cidade a que todos esses artistas devem ao menos uma canção. Foi nesse pequeno município norte-americano onde Robert Moog realizou seu invento mais famoso, o Moog, um dos principais atores de uma revolução cultural e tecnológica operada pelos sintetizadores.

“O que aconteceu de especial com o Moog é que ele se tornou popular”, conta o músico e sound designer Paulo Beto. Paulo tem 11 sintetizadores, mas lembra da primeira vez que ouviu uma máquina dessas, aos 12 anos. “Naquela época eu tinha medo de alienígenas e da bomba nuclear, por causa da Guerra Fria. Pensei que fosse alguma dessas coisas!”. Nem uma nem outra, o objeto estranho se chamava Antenna, faixa de 1975 do grupo alemão Kraftwerk.

A banda sempre é mencionada quando o assunto é música eletrônica, mas Paulo afirma que, assim como o Moog, ela não é o primeiro nem único nome relevante quando fala-se de som gerado por circuitos eletrônicos, a chamada síntese sonora. Os experimentos pioneiros com esse princípio datam de fins do século XIX, correndo em paralelo com a invenção do telefone – muito tempo antes do Tomorrowland e de seu séquito fiel a graves estourados. “O Telarmônio é o primeiro aparelho eletrônico em que cada tecla é uma frequência e, por consequência, uma nota”, diz Francisco Velázquez, músico, produtor e DJ.


A estação central do Telarmônio
Conterrâneo e torcedor do Málaga, Francisco cresceu no sul da Espanha, região que desenvolveu sua cena eletrônica à margem da endinheirada Ibiza. No Brasil, ele ministra cursos e oficinas, como o próximo workshop de síntese sonora da Skol Beats Factory, no dia 31/7. A paixão por música o levou a estudar acústica e elétrica, campos que se encontraram em outra grande mudança para o mundo sintético. “O próximo grande salto foi a invenção do oscilador porque ele permitiu um controle de voltagem”, diz Francisco. Para ele, isso determina a criação do sintetizador enquanto instrumento musical.

O desenvolvimento dessa tecnologia na primeira metade do século XX é acompanhado por artistas e pesquisadores das potências capitalistas. Órgãos acadêmicos e midiáticos como o IRCAM, na França, e a NHK, no Japão, apressaram-se em produzir sons para aquilo que em breve seria chamado de eletroacústica. Aos poucos os ruídos ganharam públicos maiores, especialmente quando a intenção era soar artificialmente. “A BBC fazia trilha de ficção científica com recursos eletrônicos”, diz Paulo Beto.


O Anvil FX, de Paulo Beto, em ação. Crédito: Ariel Martini
Ainda assim, o uso desses aparelhos era restrito. Financiamentos estatais mantinham a maquinária grande e pesada e nem todo mundo podia botar a mão nela. Mesmo um filme com orçamento elevado apelava para outros recursos: a música de Forbidden Planet, de 1956, foi inteiramente composta por circuitos eletrônicos criados pelos músicos Bebe e Louis Barron – e Leslie Nielsen ainda não tinha nem cabelo branco.

Nesse mesmo ano, Bob Moog já era um nerd que vivia dos instrumentos que construía. Ele vendia Theremins de fabricação própria e, durante uma conferência, o jovem conheceu o músico Herb Deutsch. A parceria resultou em ideias como adicionar um teclado a um sintetizador, uma interface familiar e reconhecível para a maioria dos artistas. O barateamento de matéria-prima como silício foi o último parafuso de um aparelho acessível que usasse eletrônica para gerar som. Em 1963 nascia o Moog e em 1971 era lançado o primeiro MiniMoog.

Do MiniMoog ao iPod

A diferença entre os aparelhos determinou a popularização do pequeno. Assim como o iPod na virada dos anos 2000, o MiniMoog representava uma grande facilidade em comparação a seu antecessor e seus concorrentes. “Todo mundo se apaixonou porque dava pra carregar ele. É pesado pra caramba, mas pra época era uma maravilha!”, conta PB. E assim como a Apple, a Moog cresceu com a concorrência na cola, como a ARP, processada sob acusação de plágio.

O funcionamento reduzido do equipamento, no entanto, entrou na linha de produção de várias empresas. Em vez de usar uma penca de fios para conectar os osciladores, filtros, envelopes e amplificadores do sintetizador (os módulos), os aparelhos já vinham com essas partes plugadas entre si, isto é, o patch já estava feito. “O primeiro Moog era chamado de modular porque havia uma sequência de módulos para o patch e o MiniMoog já tem esse patch básico”, explica Arthur Joly, produtor, músico e Professor Pardal da RecoHead – e que também marcará presença no Skol Beats Factory, no dia 30/7, junto com o Anvil FX.


Arthur Joly e sua fantástica fábrica de sons eletrônicos. Crédito: Felipe Maia
“Em 2009 eu comecei a pesquisar a história do modular e descobri um kit para montar o próprio bumbo eletrônico. Como eu já tinha um pouco de noção de solda, eu montei meu primeiro bumbo. Depois comprei os outros kits: uma caixa, um tom e um clap. Montei os três, pus numa caixa de madeira e fiz meu primeiro synth”, diz Arthur. Desde então, ele já construiu mais de trinta geringonças musicais para artistas e amigos. A queridinha é a JolyMod1, armário eletrônico que só sai do seu estúdio por uma grana para realizar seu sonho. “Eu vou fazer o maior sintetizador do mundo”.

O título pertence ao TONTO, sintetizador britânico que tem o tamanho de uma Kombi e meia. Célebre pelas medidas, ele também ganhou fama ao ser usado por músicos como Stevie Wonder e Quincy Jones entre os anos 70 e 80. Essa época marca os primeiros encontros de maior alcance entre eletrônica e música popular. No Brasil, músicos como Jorge Antunes e Rodolfo Caeza estreavam em discos de eletroacústica e bandas como 14Bis e Os Mutantes usavam a sonoridade psicodélica dos sintetizadores. “A Rita Lee foi tocar em outro país e saiu daqui levando um teclado com um adesivo do Moog. Ela jogou esse teclado fora e voltou pra cá com um Moog de verdade!”, lembra Paulo Beto.

“A máquina é foda”

Durante esse período também surgiram sintetizadores dedicados como as caixas de ritmo e as baterias eletrônicas, caso da Roland TR-808. Elas cunharam gêneros que ganharam as prateleiras de lojas de discos e tags de MP3. “O techno de Detroit foi feito por gente que não tinha grana com sintetizadores que hoje a gente chama de brinquedos”, conta Pedro Zopelar.  Músico e produtor, ele foi selecionado para a Red Bull Music Academy 2014, residência artística que anualmente reúne artistas da música eletrônica. “Os sintetizadores mudam a linguagem da música. Eles dão a possibilidade de fazer uma apresentação, mesmo com improvisação, usando somente o som gerado por máquinas”, diz.


Pedro Zopelar com sua Analog Four. Crédito: Felipe Maia

Mineiro de Caratinga, o jovem teve seu primeiro contato com sintetizadores quando o MiniMoog já estava na categoria vintage do eBay. Arthur Joly explica: “há uns cinco anos perceberam que esses instrumentos não deveriam ser esquecidos, que eles tem riquezas que não ouvimos nos modelos digitais”. O digital em sua retidão provocou uma ressaca do erro. Zopelar, por exemplo, grava algumas de suas músicas em rolos de fita. “Acho que cada vez mais tem gente mais nova curtindo muito essa estética antiga, de VHS”, diz ele.

A linguagem binária, contudo, se sobrepôs às correntes analógicas. O mercado está repleto de aparelhos baratos cujas ondas sonoras resultam de cálculos ou emuladores de sintetizadores, os VSTs, que podem ser compartilhados em qualquer rede p2p. Para Francisco, a acessibilidade que nem se imaginava quando da invenção do MiniMoog é uma vantagem, mas também um problema. “Tem tanta coisa que tem gente que não sabe o que focar: tem cara com 15 sintetizadores virtuais sem entender nenhum”, diz.

O espanhol acredita que os próximos passos na tecnologia desses instrumentos devem se voltar ao design. “Acho que chegamos num ponto que é complicado ir mais a frente quanto a síntese, mas acho que vamos revolucionar a ergonomia dos objetos”, afirma. Para Zopelar, o futuro da música eletrônica passa por mais performances ao vivo e isso depende de sintetizadores. O músico faz parte do Anvil FX, grupo fundado por Paulo Beto, e sua mais nova traquitana musical resume os últimos avanços no mercado.  “Esse modelo é um híbrido, ele tenta unir o melhor dos mundos analógico e digital”, diz.

Entre as possibilidades dos VSTs e a textura do MiniMoog, entre baterias eletrônicas e caixas de ritmo, entre campos eletromagnéticos e ondas senoidais, Zopelar se diz convicto: “Qualquer lugar em que eu estiver, na onda em que eu estiver, eu estarei fazendo um som. Sou músico acima de tudo”. E quanto aos sintetizadores, sempre sujeitos a perfeição e ao glitch, ele tem outra certeza: “a máquina é foda!”

Matéria originalmente publicada no Motherboard.

Sorteio: um dia do Converse Rubber Tracks Live

28/07/2014 at 12:33

 

CRTL

Converse Rubber Tracks Live apareceu por aqui semana passada. A corrida pelas entradas já rolou, mas há uma repescagem pra quem não descolou ingressos: um sorteio maneiro.

O esquema é simples: 1) Aperte o botão do JÓIA do Facebook (ao lado); 2) Escreva no campo dos comentários qual nome do line-up você quer assistir no festival (abaixo).

Às 15h30 rola o sorteio do par de ingressos. Quem levar, ganha as duas entradas para o dia da banda ou artista escolhida no comentário.

Lembrando que a lista de shows é a seguinte:

30/07 – Chromeo, Classixx, Schoolbell, Godasadog
31/07 – Brand New, Minus The Bear, Vespas Mandarinas, Coyotes
01/08 – Busta Rhymes, Chet Faker, Don L, Nego E
02/08 – Dinosaur Jr., F*cked Up, Single Parents, Churrasco Elétrico
03/08 – Clutch, The Sword, DLC, magueRbeS

Saiu o resultado e o sorteado é o primeiro nome que aparece nessa lista.

Rodolfo Abrantes

24/07/2014 at 21:18

 

Rodolfo Abrantes

Muito se falou sobre essa matéria assim que ela foi ao ar, em junho, pelo site da Trip. As afirmações de Rodolfo suscitaram respostas dos antigos companheiros de banda e, a reboque, uma gritaria contra e a favor do ex-Raimundo se formou.

O detalhe interessante desse perfil é que ele foi completamente autorizado pelo artista, mas, ao contrário do que pode se pensar, ele não foi alterado pelo músico. Embora não costume fazer isso, atendi ao seu pedido para ler o texto e, felizmente, não houve problemas quanto ao que estava escrito.

O texto abaixo é a versão original da matéria, lida e avalizada por Rodolfo.

A fila já vai grande às 19h50. Algumas centenas de jovens, a maioria com menos de vinte e poucos anos, vão se amontoando em frente aos portões fechados do principal auditório da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Eles falam alto. Uns conversam em inglês. “I miss you so much!”. Quem tem pulseirinha de acesso restrito não precisa esperar a abertura oficial. A imprensa convencemos o atarefado estafe a liberar nossa entrada.

No lado de dentro a banda passa o som. Tira grave, sobe agudo, ei, som, ei, som. “Alguém quer alguma coisa?”, grita o técnico de áudio de cima do seu poleiro. “Quero um café!”, brinca Rodolfo Abrantes. Ele está no centro do palco empunhando a guitarra. Ao seu redor, sua banda, cortinas vermelhas, cem lâmpadas em forma de velas e três pessoas orando num canto.

“A gente vai fazer uma parte da adoração, é uma parte do culto”, explica Rodolfo. Ele é um missionário, alguém que, segundo as tradições evangélicas, passa a mensagem de Deus. “A carta não é a minha, eu sou o carteiro”, diz. Aos 41 anos, ele recusa o título de artista que carregou até 2001, ano em que deixou os Raimundos.

“Eu vim de uma cidade projetada, minha família toda tem médicos, era tudo planejado e eu não queria aquilo pra mim”, conta. Rebento da segunda geração roqueira do Distrito Federal, o moleque Rodolfo viu na música a chance de sair do plano piloto a ele imposto. Ao lado de Digão, fundou os Raimundos em 1987 e, em 1994, rumava ao sucesso com o primeiro álbum.

Em pouco tempo ele deixou de ser fã de rockstars para se tornar um deles. Rodava o Brasil na rotina avião-hotel-palco-hotel-avião. Ao lado de bandas como Planet Hemp e Charlie Brown Jr, os Raimundos tocaram o último acorde do rock brasileiro de grandes proporções. Lotavam casas de show, vendiam quilos de CDs e arrepiavam os ouvidos mais carolas com a mistura de riffs velozes e distorcidos, vocabulário calango e histórias de sexo oral, escatalogia e ganja.

O sucesso aumentava e Rodolfo ficava cada vez mais junkie. Maconha era mato. “Eu fumava um e já estava pensando no próximo, cheguei a cheirar e tomava ácido pra caramba”, conta. Para ele, o ápice da fama coincidiu com o fundo do poço. “Minha saúde destruída, perdendo peso, cheio de caroço espalhado pelo corpo: eu me sentia morrendo”.

Rodolfo decidiu que daria fim àquilo logo após a gravação do aclamado álbum MTV Ao Vivo, em junho de 2001. Ele se convertera no começo daquele ano, motivado, num primeiro momento, por Alexandra (então namorada e atual esposa). “Nosso relacionamento estava indo por água abaixo”. A convite dela, evangelistas da periferia de São Paulo foram à sua casa. Anos depois de entrar num puteiro em João Pessoa, o músico encontrava seu Deus.

Homem de fases
Rodolfo conta sua história e sua crença com precisão litúrgica. Embora sempre leia a Bíblia, não menciona passagens com proselitismo pastoreiro. Fala de forma complacente. Sua prosódia em nada lembra os pregadores ufanistas, mas tampouco resgata a língua frenética de músicas como Nêga Jurema, em que cospia duzentas e três palavras em apenas dois minutos.

“Eu tenho 100% de arrependimento”, diz ele quando indagado sobre suas letras na época dos Raimundos. As dezenas de composições feitas durante esse tempo garantem parte de seu orçamento por meio dos direitos autorais, mas ele não toca mais nenhuma dessas músicas.

A maior parte das suas contas é paga pelos seus álbuns de cunho evangélico, assinados com a sigla RABT, e pelas apresentações que faz pelo país. Nesse caso, o pagamento vem como oferta — uma das formas de remuneração instituídas na Bíblia, segundo ele. “Eu saio da minha casa e posso não receber nada”, afirma.

Assim como não enxerga verdade em alguns pastores — “tem pilantra se passando por pastor” –, Rodolfo também não acredita no endinheirado mercado gospel. “Eu não consigo ver Jesus nesse tipo de show porque o povo está aplaudindo o cara que está tocando e a adoração não serve pra ninguém me aplaudir”, diz ele em meio ao barulho que antecede o culto.

“Dia histórico”, “Tua casa, senhor”, “Te sentimos aqui”. Muitas palmas. Já passa das 21h quando os jovens do grupo Dunamis Pockets se reúnem como numa concentração pré-jogo de futebol. O fundador da organização, Felippe Borges, puxa o coro em voz alta em meio a frases desencontradas. Rodolfo mantem a voz baixa, talvez porque vá precisar dali a pouco.

Ao sair da coxia, Felippe invade o palco entoando a pregação como se fosse dono de uma startup também repleta de fieis. Às vezes, ele rima “man” com “amém”. Sua voz se mistura a um estridente exemplar da febre EDM, trilha para os dizeres de amor, paz e união e imagens de skatistas que se revezam no telão.

Sem pompa, Rodolfo toma seu lugar ao centro. Ele é mais um entre lâmpadas incandescentes em forma de vela e sob um holofote de vários lúmens. Sua apresentação sobrepõe o misancene imposto, mas não atrai os olhares da plateia: a maioria das pessoas está de olhos fechados e pouquíssimos celulares estão em mãos.

O missionário Rodolfo sabe que o culto se estende até a meia-noite. Depois, ele grava em um estúdio de São Paulo. A poucos quilômetros dali, em Ribeirão Preto, o restante dos Raimundos tocariam no dia seguinte como parte do João Rock, festival que tenta dar sobrevida ao agonizante rock nacional. Embora ainda converse com seus antigos companheiros de estrada, Rodolfo não conhece a agenda da sua antiga banda.

No seu calendário, esse dia está marcado como volta para casa. Ele mora em Florianópolis e, quando dá tempo surfa na praia logo em frente a sua porta. Cair na água é um dos poucos hábitos que mantem desde a adolescência. Mas sua prioridade é sua missão terrena. Ele não acha que corre o risco de ter uma overdose. Afinal, Deus é veneno? “Não, porque ele não é desse mundo.”

Chet Faker e Classixx no Brasil

18/07/2014 at 14:49

 

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Chet Faker, Busta Rhymes, Classixx e Dinosaur Jr. Esses quatro e mais uns tantos tocam no próximo Converse Rubber Tracks Live, em São Paulo, entre 30 de julho e 3 de agosto.

A seleção dessa vez é mais parruda que na primeira edição do evento, cujo destaque foi o Washed Out já longe da crista do chill wave — por onde anda o Neon Indian?

O australiano, sósia do Amarante, deve ser o ponto alto do festival.

O eletrônico de brisa praiana do duo Classixx também deve valer o ingresso que, aliás, é de graça.

Chromeo e Minus The Bear também tocam no festival. O line-up completo está aqui.

Será só futebol

11/07/2014 at 19:27

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O apito final soou como um silvo agonizante de monitor cardíaco. Faltariam palavras para escrever o aconteceu na partida entre Brasil e Alemanha do dia 8 de julho de 2014. Passadas algumas horas, a rede — que, para alegria de Barbosa, não havia em 1950 — fez seu trabalho. Retumbou a maior derrota da história da Seleção Brasileira sob diversas análises, ideologias, piadas rasas, dramas teatrais e pranchetas táticas.

O tempo, falastrão, dirá quais cronistas ganharão o privilégio da exceção à regra (clara) da história, cujas páginas são dedicadas aos vencedores. Enquanto o calendário não passa para deslumbrar o tamanho da cratera e desanuviar o futuro do pós apocalipse, vale recorrer a Gilberto Freyre e seu olhar aguçado de pena afiada.

O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura. A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo brasileiro de jogar que de um jogador um tanto álgido como Domingos, admirável em seu modo de jogar mas quase sem floreios – os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – um critico da argúcia de Mario Filho pode dizer que ele está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado nos entre tropicais. Em moderna linguagem sociológica, na situação de um apolíneo entre dionisíacos. O que não quer dizer que deixe de haver alguma coisa de concentradamente brasileiro no jogo de Domingos como existe alguma coisa de concentradamente brasileiro na literatura de Machado. Apenas há num e noutro um domínio sobre si mesmos que só os clássicos – que são, por definição, apolíneos – possuem de modo absoluto ou quase absoluto, em contraste com os românticos mais livremente criadores. Mas vá alguém estudar a fundo o jogo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas de qualquer modo, dança. (Prefácio de “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho)

A derrota de 7 a 1 foi a derrota da capoeiragem, do samba, do barroco, da literatura, da molecagem, da malandragem e do tal apolíneo-dionisíaco — um gol por vez. Por 90 minutos, o Brasil ruiu frente ao carrilhão germânico, bárbaro e odiosamente polido, pois nem a brecha da ofensa nos foi dada. Da maneira como aconteceu, a derrota nos tirou a folha de identidade colada à primeira página do passaporte com salvo-conduto para qualquer lugar do mundo.

Mas é só futebol. E a capoeiragem, o samba, o barroco, a literatura, a molecagem, malandragem e o tal apolíneo-dionisíaco sobreviverão para reaparecer de tudo quanto é jeito. Muito cedo ou pouco tarde, estarão em novas equipes, times, seleções e, mais importante, peladas, altinhas e jogos de várzea. Com a bola no campo, esses jogadores farão coisas que, de tão simples e belas, serão só futebol.

Não se trata de mística, sebastianismo, catolicismo, espiritismo, pachequismo, scolarismo. É ceticismo do mais racional possível.

Há cem anos o Brasil vive na bicicleta de Leônidas, nos passos falsos de Garrincha, na inteligência de Sócrates, nas firulas de Ronaldinho, na astúcia de Romário, no reinado de Pelé.  Serão precisos pelo menos mais cem anos para que essas coreografias caiam por e pela terra batida dos campinhos. Mais duzentos anos para que símbolos nacionais produzidos, como os bandeirantes do positivismo, tomem espaço de manifestações populares. E mais trocentos anos para que a representação de um povo não se reduza a alguns heróis encarnando um poder mágico em um picadeiro panóptico –  ou só futebol, que nesses últimos cem anos pouco mudou suas regras para se adaptar a atletas cada vez mais sobre-humanos.

No Brasil, ainda será só futebol mesmo que a gestão da santíssima trindade CBF-Cartolagem-FIFA continue a sucatear o esporte com a extrema unção de uma parcela global da imprensa. E como disse uma amiga, quem dirá que foi feio se, daqui a quatro anos, voltarmos a ganhar só com futebol? Como a Argentina pode fazer no domingo, caso vença a Alemanha.

Dirão, com razão, que foi injusto. Não a injustiça agridoce do pior que vence o melhor, mas, sim, a injustiça que se esbalda na estrutura futebolística: um círculo de anciãos que teima em ceder espaço a novos dirigentes, técnicos conservadores e antiquados, contratos cujo retorno financeiro é desigual e questionável, campeonatos com baixíssimo nível competitivo (se muito, disputados),  sub-empregos em times fora das grandes capitais, o esporte disfarçado de salvação messiânica, entre tantos outros que já são sabidos desde que o Brasil é só futebol.

Nessa balança cética, é mais fácil acreditar no sete pintado de Gilberto Freyre que em alguma mudança substancial. Organizações do futebol não dão a mínima satisfação a ninguém. Pragmaticamente, o poder supranacional da FIFA é maior que a ingerência da ONU. Como a revolução é um sonho, que seja um sonho tropical, antropofágico, manguebeat. Mais vale absorver o que há de bom que importar uma panacéia alemã. Idolatrar um modelo internacional pode trazer resultados até piores que a estagnação. Crer nessa solução equivale a dizer que o Brasil não é um país melhor porque não fomos colonizados pelos britânicos.

Mas crer nessas mudanças é utopia. Pouco será feito nos próximos quatro anos. O futebol, para os manda-chuvas, será só futebol. E para quem joga, será só futebol. E de tempo em tempo o Brasil será só futebol. Bêbados, vamos acreditar na vitória, mesmo que as eliminatórias sejam difíceis, mesmo que a Copa América seja vergonhosa, mesmo que ganhemos a Copa das Confederações — vale algo?

Embora fique o carimbo do 7 a 1, nosso passaporte ainda tem as credenciais da capoeiragem de um lance plástico, do samba duma tabelinha, do barroco entre firula e objetividade, da literatura de um novo esquema tático, da molecagem do improviso, da malandragem da catimba e até o tal apolíneo-dionisíaco, coisa de gênio para gênio. Itens que, embora escassos na safra de 2014, dão no pé por aqui.

Blitz + Emicida

26/06/2014 at 23:15

Não deu pros Black Stars. A derrota para Portugal mandou a seleção ganesa de volta a África, mas, pra Gana, o Brasil é logo ao lado. Na suíte All Around the World e Respect Mine (faixa do EP Warm Up, de 2013), o rapper ganês Blitz The Ambassador versa ao lado de Emicida e Kamau sobre os encontros do terceiro mundo.

Seu panafricanismo vai além do continente numa toada sobre células de percussão, metais agudos e guitarras em arpejo. No mesmo dia da desclassificação de Gana, Blitz continua como um dos maiores rappers africanos.

Black Stars Blocs

26/06/2014 at 12:49

Independence_Arch

A seleção de Gana deu um nó tático na FIFA.

Como não tinham recebido a premiação pela classificação para a Copa do Mundo, os Estrelas Negras ameaçaram greve: não jogamos contra Portugal pela última rodada da fase de grupos. Sequer cruzaram os braços, a exceção de um treino boicotado, tamanho o poder de barganha que tinham em mãos. Um avião caixa-forte saiu de algum cofre escuso para desembarcar no Brasil com três milhões de dólares em espécie. Numa das cenas mais insólitas dessa Copa, o bicho chegou em Brasília e, com razão, foi escoltado até o hotel dos ganêses.

Se eles fossem metroviários em vésperas da Copa, muita gente ia olhar feio. O Datena ia parar de narrar jogo para voltar correndo pro Brasil Urgente. O tal yellow bloc logo deitaria-lhes a pecha de black stars blocs.

Como são jogadores, conseguiram no máximo arrancar um desagrado da FIFA, por ora. Como o prêmio não será tributado, a Fedération já não pode se gabar de ser a única turma livre de impostos no Brasil. Menos um título corporativo para ela, já que também não deve ser a única a movimentar grandes quantias de dinheiro durante o espaço-tempo Copa. Aliás, sobre dinheiro: embora o valor laureado ao time de Gana seja ultrajante a muita gente (inclusive aos metroviários), a grana nem é tanta perto do soldo do menino Neymar. Nessa história de futebol moderno não tem peladeiro, e sabe-se que o dinheiro fala mais alto que a camisa. O prometido era devido. Como quem devia, temia, a grana pingou.

Com a seleção de Gana não teve Bom Senso FC. Sócrates, da Democracia, e Saldanha, do Comunismo, talvez não gostassem dos fins, mas quem sabe exaltariam os meios dos Black Stars. E se isso não for suficiente para torcer por eles no jogo contra Portugal, ficam aqui mais cinco motivos para torcer por Gana.

Antes deles, vale saber: para chegar às oitavas de final, Gana precisa vencer Portugal e torcer pela derrota dos Estados Unidos para a Alemanha. No fim das contas, também precisa passar os norte-americanos no saldo de gols. Tarefa árdua, mas possível.

- Um dos maiores futebolistas da África é ganês. Abedi Pele, nome dado em homenagem ao rei, foi um dos responsáveis por um dos maiores títulos do Olympique de Marseille, a Liga dos Campeões da UEFA de 1992.

- Gana foi eliminada pela mão de Suarez, o vampiro charrua, na Copa da África. Como o uruguaio já provou que seu caráter vale menos que uma cuia de mate da cisplatina, seria mais do que justo ver o time africano recompensado com a classificação para a fase eliminatória. (Loco Abreu continua sendo um mito pela cobrança por cobertura.)

- O time ganês valoriza as raízes do seu país. Nas eliminatórias para esse mundial, os jogadores e a comissão técnica fizeram uma preleção com cânticos tradicionais da terra.

- O povo ganês curte muito futebol. Não que seja diferente de muitos outros países africanos ou latino-americanos (nós todos do sul), mas a empolgação dos caras com o gol contra os Estados Unidos é de por respeito. E isso tudo no Bronx.

- Gana tem uma das cenas musicais mais prolíficas da África. O continente é grande demais, mas Gana consegue resumir nas ruas de Accra o que se passa no lado ocidental da África. Não à toa, Kwame Nkrumah, seu primeiro presidente, foi um dos pioneiros do Pan-Africanismo. Até ele tomar o cargo e o país se transformar em república, Gana seguiu a infeliz cartilha do dominado e foi colonizada por vários países europeus. Conservou centenas de línguas e adicionou o inglês ao léxico. Hoje, é ladeada pela afrancesada Costa do Marfim e pela opulenta Nigéria. Esse encontro sucessivo deságua em formas revistas do hip hop do norte, do suíngue da África francófona e do jazz importado no começo do século XX.

Numa linha do tempo moderna de ponta a ponta, o highlife do Alhaji K.Frimpong and his Cubano Fiestas…

…evolui até o rap do Blitz, the Ambassador…

…e alcança as massas no Afrobeats do Atumpan.

E não para por aí.

 

O franco irmão do Sónar

25/06/2014 at 16:47

Nuit 4 - Marché Gare

O Nuits Sonores é, na lata, o equivalente francês do Sónar. O festival catalão até encontra paralelo no Marsatac, festival que acontece em Marseille, ao dar vitrine para novas experiências sonoras. Mas é como chancela dessas sonoridades que o Sónar e o NS se irmanam, alavancando nomes de pista e SoundCloud a grandes palcos e, no caso francês, resgatando outros tantos.

O festival tem crescido bastante com o passar dos anos, especialmente por causa da buliçosa cena eletrônica francesa que permite uma lista bem cheia para os quatro dias de shows. Desde 2012 as apresentações se espalham pela rival parisiense, a cidade de Lyon, e nos palcos desse ano passou gente como Laurent Garnier, Jackmaster, Motor City Drum Ensemble, Dum Dum Girls, Nina Kraviz, Four Tet e Kraftwerk.

O Darkside também foi escalado para essa edição do festival. O duo toca na trilha do clipe abaixo, um resumo saboroso do crème de la crème brûlée da eletrônica. Assim como Sónar, o Nuits Sonores terá uma versão fora da sua cidade natal ainda esse ano. O festival sai de Lyon e aterrisa em Tanger, Marrocos.

Como é o futebol?

20/06/2014 at 11:30

Now, as many have said, it’s hard to truly appreciate this stuff if you’ve never played before, but if you haven’t, try this. Imagine you’re running as fast as you can. I mean a full-on panting sprint. Now imagine doing something else with your feet at the same time. Seriously, imagine it. It’s hard to wrap your head around the idea, isn’t it? Now imagine there’s another human trying his best to stop you. Imagine that other human is a brawny Brazilian nicknamed Hulk. When you start to see it that way, you realize that soccer isn’t all about the goals. It’s about all the amazing little things that happen along the way.

Além do excelente exercício de imaginação proposto, o trecho acima convida o leitor a jogar futebol ao menos uma vez na vida. A graça é pensar que essa probabilidade norte-americana praticamente inexiste por aqui. Será que há um filho desse solo de mãe gentil que nunca tenha chutado uma bola de futebol?

O texto completo, um resumido guia do estilo “for dummies”, está aqui. Ele foi escrito por Matthew Diffee, cartunista da New Yorker escalado para escrever sobre a Copa do Mundo. Bem capaz que seja um dos poucos da redação que saiba e goste do riscado.

Nota: aparentemente, este blog volta para mais uma temporada.

Músicas negras do KL Jay

24/04/2014 at 20:19

kl jay

No começo de abril conversei com o KL Jay para a revista Trip. A questão era o racismo e, entre outras ideias, ele soltou uma lista das suas dez melhores músicas feitas por artistas negros. A seleção vem logo abaixo, com o bônus da faixa própria.

“Negro drama” / Racionais Mc’s

“Canto das três raças” / Clara Nunes (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte)

“Zumbi” / Jorge Ben Jor

“Fear of a Black Planet” / Public Enemy

“Off the Wall” / Michael Jackson

“White Man’s World” / 2Pac

“Odiados amigos” / X da Questão

“Equinox” / John Coltrane

“Haiti” / Gilberto Gil e Caetano Veloso

“Get Up Stand Up” / Bob Marley

“1999” / Common, Talib Kweli e Sadat X