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Mac DeMarco: despretensão resistente

17/04/2014 at 11:46

Mac DeMarco tocou em meados de maio último no Brasil. No palco, dá para ver que o título de queridinho indie — da Pitchfork à Spin — vai bem a calhar. Não há pretensão nenhuma no seu mise en scène, que vai das paletadas rasgadas aos arrotos e piadas rancheiras. O ato, menos teatral que de atitude, preenche uma lacuna perseverante em meio a tanta produção maquiada. É uma resistência dissimulada.

Na última meia hora do show no SESC Belenzinho o canadense encarnou o moleque com hora de ensaio sobrando no estúdio: já que não tem música pra tanto tempo de palco, se mete a tocar Metallica e imitar o Eddie Vedder que, segundo a conversa abaixo, nem são suas referências.

Mac DeMarco

Mac DeMarco tem diastema. Se ele fosse mulher, magra, loira e alta, certamente estaria entre as mais cobiçadas modelos do mundo. Sabe como é… A indústria dos padrões tem pagado alto para manter-se dentro dos padrões enquanto põe só um pezinho fora deles.

Mas Mac DeMarco nem liga pro seu diastema – tampouco para os padrões. Seus dentes separados são mais um sintoma de sua personalidade que de algum problema ortodôntico. Para entender isso basta olhar sua conta do Instagram com imagens toscas e vídeos de arroto.

Claro que uma conversa deixa mais evidente essa história de pouco se lixar. De Vans rasgado, calça de pular brejo manchada de mostarda, camiseta surrada e boné de promoção, o músico canadense encontrou a Trip para trocar uma ideia.

Dá pra somar nessa conta barata a guitarra japonesa de trinta dólares que ele comprou quando começou sua última banda, a Makeout Videotape. Manteve o instrumento na carreira solo e não pensa em trocar. “Eu gosto do som e do jeitão dela”, diz ele.

Sua música cai bem nas cordas gastas e presas por um capo — espécie de presilha colocada no braço da guitarra. Os acordes suspensos e notas dobradas são de um bluesman que, em vez de ser Jimi Hendrix, escolheu ser Bob Dylan. Mais punk, é verdade.

Nesse caminho, DeMarco parece ter parado em algum lugar entre os anos 80 e 2000. Canções como “Viceroy”, “Cooking Up Something Good” e “Rock and Roll Night Club” mantem um ranço de fita cassete, mas são baladas pra degustar com um tocador de MP3 com streaming.

Abaixo, o artista canadense fala sobre as distâncias encurtadas pela internet, método de composição e álbuns que são referência. Como ele não liga pra muita coisa, também mete o pau na cena musical de Montreal e na molecada que só faz música no quarto.

Como você começou a fazer música? Imagino que tenha sido na adolescência. Mac DeMarco: Comecei a tocar violão quanto eu tinha uns 14, 15 anos. Aprendi a tocar e comecei a assistir a shows até que pensei: eu poderia tocar numa banda. Aí fiz minha primeira banda quando tinha uns 17 anos.

Então você teve outras bandas além da Makeout Videotape? Sim. Eram todas bem engraçadas. Tive uma banda de “joke rock” chamada The Meat Cleaver, uma banda de R&B chamada The Sound of Love e uma outra com um amigo chamada Outdoor Miners.

E em todas essas bandas você usou sua guitarra de trinta dólares? Na verdade eu comecei a usar bastante a guitarra com a Makeout Videotape, minha última banda. Era uma guitarra japonesa barata.

Você ainda usa essa guitarra? Sim. Eu gosto do som e do jeitão dela.

Você usa bastante o capo, né? É, sim. Eu comecei a usá-lo porque as cordas saíam das casas e o som da guitarra era uma bosta e também porque o capo me ajuda a não perder alguns acordes dependendo do tom.

Entendo. Pensei que era algo de seu estilo. Hoje em dia é? Sim, agora faz parte do meu estilo.

E você chama sua música de jizz jazz. O que é isso? Eu não sei, é como a música soa. Toda hora alguém tenta rotular algo como música pop, indie. Essa história de jizz jazz confunde as pessoas e faz sentido pra mim.

Mas como você descreveria sua música? Não sei… Acho que são músicas com guitarra, canções pop.

Não tem um lance mais lo-fi? Tem muita gente fazendo música mais lo-fi, mas eu acho que isso é mais sobre o jeito que a gravação é feita e eu não gosto desse jeito. Eu gosto de gravar com o melhor que tenho!

Desde 2009 você gravou sete álbuns, entre EPs e LPs. Você não acha que isso é bastante? Eu não acho que seja muita coisa. Eu gosto de tocar e gravar.

Mas você compõe na estrada? Não, não. Quando estou em casa eu penso: vou fazer um álbum. Aí faço todas as músicas e gravo. Eu gosto de fazer o álbum, dessa sensação do disco.

Isso é interessante. Você é de uma geração que é muito influenciada pela internet. Nem todo mundo dessa geração gosta dessa história de álbum. Eu gosto do álbum. Eu não gosto dessa ideia de gravar singles. Gosto dessa parada mais clássica. Um monte de músicas que tem sentido juntas. Isso é fantástico.

Mas você não acha que é parte dessa geração? No sentido juntar passado e presente. Sua músicas às vezes soa vintage, seus clipes parecem feitos com VHS, mas tudo tem um frescor. Eu acho que essas coisas que parecem VHS, coisas antigas, são coisas baratas também. Hoje em dia você tem muitas ferramentas digitais que não são boas. Nos anos 80 e nos anos 70 era tudo analógico, mas hoje em dia tem câmeras e equipamentos que você só precisa ligar. E no final o som é uma bosta. Você não faz escolhas, está tudo pronto. Tentar coisas novas é legal, mas gosto da maneira com que soam os álbuns antigos.

Você consegue dizer uns três discos que são relevantes pra você? Que soam dessa maneira? Transformer, do Lou Reed, é um álbum ótimo. Plastic Ono Band do John Lennon é fantástico. E Ram, do Paul McCartney. Esse álbum é muito bom.

E quais seriam os clássicos que te influenciaram? Beatles, The Kinks, Shuggie Otis, Lou Reed. Esses caras.

Fechando esse papo sobre internet, você não acha que ela acabou com as barreiras entre coisas do passado e do presente? Não fosse ela talvez você não conhecesse esses caras. É, talvez eu não conhecesse a música do Lou Reed. Mas quando a gente não tinha internet também estava tudo bem. Tudo muda muito rápido hoje em dia. Eu tive bandas por muito tempo, eu tentava fazer shows. Hoje em dia tem gente que produz música no quarto e nunca fez um show, nunca tocou fora dali. Enfim, a internet é bacana, sim. Se não fosse por ela talvez a gente nem estivesse aqui no Brasil. Mas muito do meu gosto musical foi formado antes do YouTube. Coisas que minha mãe ouvia. Quando eu tinha 12, 13 anos e quando a conexão era discada, lembra?

Sim, você tinha que esperar um tempão para baixar algo… É. Você tinha que querer mesmo aquilo que estava baixando!

Você não é de Montreal, mas você viveu um tempo por lá. Por quê? É uma cidade com uma cena musical forte. Fui pra lá porque era mais barato que Vancouver! A cena é legal, mas não me sinto parte dela. Eu fazia minha música. Era bacana porque várias bandas do Canadá vão para Montreal, mas nunca me senti muito conectado a elas. Eu não fui pra Montreal pra ser famoso ou pra ser a Grimes. Isso é estúpido pra cacete!

Mas você é mais famoso que muita gente lá, agora… É, mas não foi porque eu me mudei pra Montreal. Tem gente que valoriza essa cena de Montreal, mas é bobagem. Eu nem moro mais lá. A Grimes não está lá mais. A cidade tem uma reputação em cima de gente que nem está mais lá.

Você vive onde agora? Agora estou no Brooklyn.

Mas o Brooklyn também é um lugar que me soa hype: várias bandas vem de lá, cenas musicais… Sim, mas lá é muito legal porque você tem muitas cenas e muitas bandas. Em Montreal você faz um show e pensa: cara, eu não gostaria de tocar com essa banda. No Brooklyn você assiste uma banda e pensa: cara, eu gostaria de tocar essa banda. Isso acontece muitas vezes.

Você se mudou para o Brooklyn para ficar mais perto da sua gravadora? Na verdade me mudei porque era mais legal. Montreal estava muito chata.

Suas gravações são feitas em fita ou digitalmente? Todos meus álbuns eu gravei em fita, mesmo.

E suas músicas geralmente falam de coisas prosaicas, coisas comuns, romances normais. Por quê? Escrevo sobre as coisas que eu sei. Não quero ficar falando o que as pessoas devem fazer. Não quero escrever sobre algo que eu não sei. Escrevo sobre minha vida porque é algo que sei. Gosto das coisas pequenas. Gosto de escrever músicas românticas que não sejam muito específicas. Se eu tiver a oportunidade de escrever algo específico sobre mim, eu faço, mas isso é duvidoso. A partir do momento que você escreve uma música ela já não é mais sua. As pessoas podem fazer interpretações sobre aquilo e se ver ali.

Seu próximo disco sai em abril. Você já está tocando umas músicas novas? Sim, várias. É nossa primeira vez na América do Sul, então a gente tem que tocar músicas dos primeiros discos, mas a gente toca umas músicas novas. Isso é bom porque a gente tem tocado as mesmas músicas faz uns três anos. É legal ver as pessoas gritando as letras com a gente.

Pra acabar, aquela pergunta clássica: o que você conhece de música brasileira? Eu adoro o João Gilberto.

Essa é a resposta clássica também! É mesmo, mas eu gosto bastante de Garota de Ipanema. E daquela… O Pato. Quén, quén, quén.

Entrevista publicada originalmente no site da revista Trip.

O Essential Mix do Bonobo

16/04/2014 at 16:30

Pra quem não sabe, o Essential Mix é um lendário programa da BBC Radio 1 responsável por dar espaço a DJs e produtores de peso do mundo todo. No sábado, 12/4, o convidado da vez foi o Bonobo. O britânico fez uma seleção classe alta que vai do chill clivado do Cutthead à psicodelia de pista africana do Francis Bebey.

RIP Frankie Knuckles

01/04/2014 at 16:22

Frankie Knuckles

Frankie Knuckles, padrinho da house music, morreu nesta terça (31/3).

A dívida que a música tem com o produtor e DJ é grande. Em 1977, ele formalizou o som eletrônico de pista mais pela necessidade que pela criatividade. Tempos em que nem todo mundo podia ser DJ e, quem podia, o fazia porque sabia. Naquele ano, Frankie saíra de Nova York em direção a Chicago. Seria residente de uma nova casa, a Warehouse — lugar que daria nome ao gênero criado por ele e parceiros como Jesse Saunders e Marshall Jefferson.

Na cidade que deixara, o camarada Larry Levan, outro mestre, dava sobrevida à disco na também mítica Paradise Garage. Entre os trunfos de Levan estava a artimanha que Frankie usou como ponto de partida de sua criação.

“Muitos desses discos de dance music feitos hoje em dia são criados por produtores de quarto. Mas, antes disso, era tudo diferente. Eu não tinha a tecnologia. Eu tinha um estilete, um tape deck de rolo e muitos rolos de fita”, diz ele em 1997 em entrevista à clássica revista Keyboard.

Enquanto Levan estendia clássicos da Motown, da Atlantic e da Stax por horas a fio, Frankie botava seus ouvidos nas menores células das faixas. Batidas, viradas de bateria e riffs de piano foram realçados pelo produtor que, em pouco tempo, passou a remixar músicas. A adição da Roland TR-909 seria fundamental no house, afastando de vez a necessidade da instrumentação orgânica do disco. Com o tempo, cantoras como Diana Ross e Toni Braxton, acostumadas a estúdios com grandes bandas, emprestavam suas vozes à misteriosa aparelhagem do Mr. Warehouse.

O avanço estético conversava com a consolidação das experimentações alemãs, antevia a proposta minimalista do techno de Detroit e serviu de base para a improvisação instrumental do Acid House do Phuture. Além disso, o som tinha a cara de Chicago. Era música negra feita para dançar como fora o explosivo jazz de Countie Basie.

Abaixo, um pequeno documentário da Mixmag resume, com entrevista do próprio Frankie Knuckles, como essa história toda se desenrolou.

A seguir, uma das mais recentes apresentações do cara num pequeno quarto abarrotado por hipsters da Boiler Room.

Por fim, uma das grandes faixas criados por Frankie Knuckles.

A nova do artífice Jamie xx

27/03/2014 at 14:23

Jamie xx é figurinha repetida por aqui, mas merece o posto porque é cromo brilhante. Sleep Sound é um panorama das paisagens sonoras criadas pelo britânico.

Artífice das frequências, o cara brinca com frases cintiladas de células pop e inesperadas quebras rítmicas. Sorrateiramente, vai da melancolia em subgraves de toda sorte ao clímax de pista sem que, para isso, fique enclausurado numa biblioteca digital de samples e formas.

O compacto sai dia 5 de maio e, quem sabe, vem com lado B.

Escuta Só #8 – Jazzy Jens, Adam Santoya, Neguim Beats, Wilfred Giroux, Little Simz

24/03/2014 at 19:23

Discos

Um trato retrato no que apareceu pelas subcamadas da rede duns dias para cá. De bits a blipes, eletrônica até o caroço, hip hop na polpa, experimentos na proa, arranjos softisticados e ondas de além-mar.

Jazzy Jens
O sueco Jazzy Jens parou numa pérola negra esquecida entre a morte da Disco e o nascimento do House — em linhas gerais, digamos. Canções que só teriam espaço na faixa noturna da Alfa FM ganham um aliviante refresco na mão do cara. Na sua versão de Mutual Attraction, o slap do baixo engrossa o caldo das sobreposições envernizadas no Ítalo Disco. Vale a nota: o Change, grupo lançado pela Atlantic Records, é dono da faixa. A banda estava baseada na Itália e nessa conversa transatlântica teve entre suas vocalistas gente do garbo e potência de Jocelyn Brown.

Adam Santoya
À cama orquestrada pelo norte-americano Adam Santoya só falta uma prosódia que valha. Milimetricamente empoeirada, a faixa toca sons que vão do The Roots ao Chet Faker — com muito menos tutano. O som é parte do compacto Up, lançado pelo cara há quase um ano, e segue a ala que tenta fazer do hip hop uma música erudita no seu encontro com o jazz — seja em forma ou em instrumentação.

Neguim Beats
Na sua nova pancada sonora, o moleque do Goiás não deve nada a ninguém, mas deve um tanto aos games. Bases graves são fatiadas e sobem para dar lugar aos agudos toques processados. As oscilações analógicas na alta frequência dão outra trajetória a rotas iniciadas, embora esquecidas, por caras como Neon Indian.

Wilfred Giroux
House de fino trato pra inglês ver. Curto e grosso, Vilfredo tirou Amy Winehouse da sua poltrona confortável de R&B e colocou trechos de sua Stronger Than Me no quatro por quatro de (aproximadamente) 128 BPM. Fosse por menos influência do Garage londrino, o som cairia como luva para o duo Disclosure.

Little Simz
A rapper britânica tem apenas 19 anos e quatro mixtapes no CV — ou Linkedin. Em vez de fluir na ira de congêneres como Iggy Azalea ou Azealia Banks, a moça viaja no cloud rap etéreo de ecos e efeitos fantasmagóricos. Em 2013, AlunaGeorge recebeu louros pela arrefecida que deu às batidas do hip hop na terra da rainha. A Little Simz deve ser a premiada desse ano.

Fábio Trummer: música, política e punk na meia-idade

14/03/2014 at 15:29

Super Sub América

Ao cantar “Salve a América do Sul”, o olindense Fabio Trummer, no imperativo, conclama e sauda o continente explorado anos a fio pelos impérios do norte. As filigranas da letra se confundem com a crueza de alta fidelidade da canção gravada com o clássico power trio punk: guitarra, baixo e bateria. Como cartão de visitas, a faixa abre o primeiro disco solo do vocalista da banda Eddie, “Super Sub América”.

Esse despretensioso grito de guerra latino-americano pode soar como uma releitura do “lixo ocidental” cantado por Milton Nascimento. Não menos mordaz que a visão do mineiro, a inspiração para Trummer se estende pelo álbum. “O Super Sub América vem do Eduardo Galeano”, diz o músico. Para o escritor uruguaio, o continente, sucessivamente subjugado por países mais ricos, é visto mundo afora como uma América de segunda classe.

A corrosão das letras consome as bases certeiras de Luca Bori e Diego Reis, baixista e baterista do Vivendo do Ócio. Rebentos do selo Sub-Pop como Pixies e Nirvana fazem parte do panteão de referências de Trummer, especialmente nesse disco. “Esse disco tem um sabor de anos 80”, conta o artista, um punk de meia idade como ele mesmo explica. “Tem a coisa do faça-você-mesmo e eu aprendi a tocar em banda, mas agora tenho 25 anos de experiência.”

Toda essa carreira foi dedicada à banda Eddie. O grupo, surgido no caldeirão do manguebeat, sempre correu por fora das misturas de maracatu, embolada, hip hop e música eletrônica – embora Trummer reconheça a natural influência do meio em que vive. “Continuamos até hoje porque criamos o nosso mercado”, diz ele, ainda vocalista da banda que se mantem ativa mesmo com seu projeto solo.

O disco “Super Sub América” tem participações de Daniel Ganjaman e foi produzido por Daniel Bózio com capa de Mozart Fernandes. Abaixo, ele pode ser ouvido em primeira mão. A seguir, Fabio Trummer fala sobre as inspirações para seu novo trabalho, a produção do álbum, cena pós-manguebeat, América do Sul e até rolezinho. “Isso mostra o que é o Brasil”, sentencia o músico ainda punk, ainda americano.

Como surgiu a ideia de fazer um disco solo? Fabio Trummer: Desde o carnaval no inferno eu tinha uma necessidade de fazer um formato diferente. A banda também desgasta muito. Às vezes você está com a banda mais tempo que com a família. Nos últimos dez anos eu fiquei mais tempo com a banda que com a família. Eu precisava desse exercício criativo, eu precisava de mais uma possibilidade de trabalho porque só eu moro em São Paulo e eu queria ter mais possibilidades de trabalho. Eu queria testar minha disciplina também. Chegar a uma técnica apurada de composição em que eu pudesse trabalhar mais rápido. Às vezes recebo encomendas e a composição é muito orgânica.

E como isso aconteceu? Fiquei de maio até o começo de dezembro completamente focado no trabalho. O Super Sub America vem do Eduardo Galeano. Ele fala que, no máximo, somos uma sub América, porque América mesmo é a América do Norte. Outra coisa que pensei é o punk de meia idade. Em 1985 o punk rock estava começando com bandas brasileiras e naquela época o Brasil estava saindo de uma ditadura para uma democracia que até hoje não se organizou. Me identifiquei com o punk porque ele se identifica com a situação. Ele tem a coisa do faça-você-mesmo e eu aprendi a tocar em banda, mas agora tenho 25 anos de experiência. Esse é o punk de meia idade. Queria muito cumprir prazos e isso é uma crítica que eu sempre faço em processos de trabalho de gravação. Os músicos não cumprem prazos. Isso é uma questão meio existencial. O artista tem um ritmo diferente, mas tem uma parte que é só técnica na gravação e não precisa de um ritmo diferente. Queria cumprir prazos e tive como meta cumprir os prazos de composição.

Qual foi sua agenda? Comecei em maio. Tinha alguns rascunhos, mas a maioria das músicas foram feitas até agosto. Chamei os meninos do Vivendo do Ócio, o Diego Reis e o Lucas Bori. Eu estava com tempo livre e queria tocar, ensaiar, fazer show, exercitar a guitarra também. O Eddie no início era muito roqueiro. Eu tenho uma técnica de distorção que era muito certeira, mas uma hora isso ficou repetitivo. Comecei a ouvir Fela Kuti, o Jorge Ben da década de 60 e fui descobrindo novas técnicas de guitarra. Eu queria aperfeiçoar o meu cantar também. Desenvolvi uma guitarra mais rítmica, a partir da Bossa Nova, do Afrobeat. São três acordes numa guitarra rítmica mais complexa mesmo. E nesse disco eu me voltei à guitarra com distorção, mais roqueira. Ano passado eu comprei guitarras, comprei amplificador. Eu estava sentindo uma necessidade de tocar melhor. Queria fazer tudo a partir do mínimo. Botei tudo com voz e violão e depois tudo com power trio. Já tinha a letra, mas terminei de compor no estúdio. Depois de ensaiar com o trio a gente fez um show e amarramos tudo mais ainda. Depois a gente gravou tudo ao vivo. Depois fui brincar com amplificadores e guitarras.

Você tinha uma timbragem pra cada música? Na mesma música havia timbragens diferentes. Normalmente eu faço isso, mas sem tanta atenção a timbres, sem garimpar ao que eu queria. Tem uma atenção maior com o instrumento. Uma relação mais afetiva na busca do timbre ou do feedback da guitarra com o amplificador. Foi uma brincadeira mesmo. Ouvi muito Smiths, Nirvana, Pixies, Placebo. Foram cinco ou seis bandas que ficaram me orientando. A minha escola de harmonia são os anos 80. É o trabalho desses caras. Esse disco tem um sabor anos 80. Eu disse para o Daniel, que está produzindo comigo, e para o pessoal da arte: há uma intenção dos anos 80. A poesia dos anos 80 parece um pouco com o que acontece hoje. O mundo de 87 é completamente diferente do que o mundo é hoje, a sociedade é diferente, mas musicalmente, não. Não em como acontece a comunicação com o público. Há uma necessidade de voltar pra rua. A gente vive numa geração que não é de garagem, é de quarto. Há uma certa necessidade de ir pra rua mesmo. Salve a distorção dos sons das ruas.

Você acha que a América do Sul sofre disso? Isso é típico de uma cultura estuprada por outra que é comercial e ditadora. Assim acontecem essas deformações. O McDonalds muda a cultura de todo o mundo. Ele vem e todo mundo deixa de comer algo saudável para comer aquilo que não alimenta, não nutre, apenas sacia. Esse tipo de ditadura do poder econômico é muito comum. Lugares como a América do Sul são lugares onde somos explorados a vida inteira. Eles tem uma bancada imensa de poder e ficamos à mercê do que eles querem fazer com a gente.
 
Você acha que as coisas tem mudado nos últimos dez anos? Mudou para o consumo. Hoje temos o poder consumista, mas não vejo infraestrutura. O Bolsa Família fez uma diferença tremenda. É um produto mundialmente copiado. Funciona. Agora falta a infraestrutura, a continuidade disso. O cara só tem o pão, mas não tem a oportunidade de fazer nada. Essa mão de obra está virando quase que mão de obra escrava em subempregos e primeiros empregos. A massa no Brasil é principalmente de gente em primeiro emprego.
 
As letras do disco transitam nessa manifestação? A maioria é. Na minha música sempre tiveram os dois lados: um momento de alegria e a minha veia mesmo, a coisa do punk rock de denúncia. Diferente de antigamente, isso vem de uma maneira com mais poesia, o que faz parte desse amadurecimento.

E antigamente qual era a relação da Eddie com o movimento manguebeat? Quando surgiu o movimento todo mundo já se conhecia, mas o Fred 04 e o Chico já tinham na cabeça uma maneira de eles conseguiram uma atenção na mídia. Eram bandas mais maduras na época. O Chico falou “o pessoal da Sony está vindo aí, vamos todo mundo pro estúdio, vamos botar umas percussões e a gente embrulha”. Eu falei “a música tem seu ritmo de desenvolvimento e se a gente mudar a gente não vai conseguir longevidade”. Todo mundo, de alguma maneira, sabia que ia ser músico profissional. Todo mundo acreditava muito e era muita gente, alguns muito talentosos. Na época que o Nação Zumbi e o Mundo Livre assinaram [com a Sony], a gente ainda estava buscando nossa identidade. Podíamos ter gravado com eles, podia ser bom ou ruim, mas a gente não teve esse pressa. E 25 anos depois vocês ainda continuam.

Por quê? Exatamente por isso. A música autoral não se desenvolve da noite pro dia, ainda mais uma música autoral que não tem nenhum nicho de mercado em que você se encaixe. É uma coisa diferente o que a indústria brasileire lhe oferece.Tem que ser a médio e longo prazo. É o tempo para se desenvolver como compositor, como cantor. Ninguém estudou, todo mundo aprendeu fazendo. É o tempo de formatar o seu mercado. Continuamos até hoje porque criamos o nosso mercado. Não é o mercado que a gente vê na MTV, nem na rádio, mas é o nosso mercado. Fizemos shows agora e foi lotação no SESC, em Brasília, etc. É um público conhecedor, que gosta de música, um consumidor consciente que não existe apenas para o Eddie. Ele existe para a música autoral. As mesmas pessoas que vão ao show do Criolo em Recife, vão ao show da Eddie. As mesmas pessoas que vão no show do Mundo Livre em Porto Alegre, vão ao show do Lucas Santtana. É um universo de música autoral que tem público fiel e cativo. Tem gente que acha que ser bem sucedido é virar um fenômeno de massa, mas nisso há um marketing muito grande. Quando você tem uma música autoral, a música tem personalidade que quase nunca é tão popular, mas tem seu público. No Brasil existe isso, só não é reconhecido pela mídia. O engraçado é que a mídia frequenta esse show, mas na maior parte dos veículos de comunicação aparecem outras coisas.

Mas você acha que esse conflito de popularidade e público é culpa de quem? Em Recife a gente tentou que uma rádio tocasse nossa produção musical desde o início do manguebeat. Nunca conseguimos, porque rádio é concessão pública. Eles só dão concessão pública para quem já tem várias concessões. As poucas rádios que tem concessões são comerciais. Uma gravadora paga para tocarem na programação os lançamentos. Sempre foi assim. Falta espaço mesmo. Falta uma democracia dentro da comunicação. Precisa de políticas voltadas a uma certa educação, a um certo conteúdo para TVs, rádios e revistas. Precisa de coisa de qualidade. A impressão que tenho é que o que está a frente das bancas e nas vitrines é superficialidade extrema. Precisa de mais conteúdo na TV, precisa afastar os vampiros da desgraça dos outros, precisa de qualidade e limites. A gente precisa fazer um trabalho de qualidade para que esse público que nos acompanha desde o começo continue nos acompanhando até os 80 anos. Isso acontece com o Eddie, porque tem crianças chegando agora e indo aos shows.

Isso tem a ver com o seu novo disco? O Trummer Super Sub America começou desde lá de trás com o que está errado. Ninguém contou essa história tão bem contada quanto o Eduardo Galeano no seu livro [As Veias Abertas da América Latina]. A gente ainda vive uma crise de identidade. Essa história do rolezinho, por exemplo. Acho que isso mostra o que é o Brasil. A gente tende a pensar que o Brasil é seu bairro, mas agora, através das informações via internet, você tem confrontos sociais. Você descobre que seu vizinho, de quem você sempre gostou, é um fascista. A gente erra muito sem saber, por ingenuidade. Em Olinda a gente sempre foi invadido. No Carnaval, pelas camadas mais pobres e mais ricas. Eu sempre vivi essa situação como olindense. Acho engraçado esse medo do rolezinho. Li o relato de um garoto dizendo que não tinha nada pra fazer, o único lazer é o shopping. Hoje o passeio cultural em Recife é ir ao shopping. Criaram esse valor. Isso é que está errado. Em vez de dar entretenimento de qualidade, você dá consumo.

E, falando sobre o disco, você ainda acredita nele? Nessa estrutura fechada do álbum? Sim. Acredito em ter um conceito e trabalhar nele. É como um filme. Gosto de pegar um álbum inteiro. Quando gosto muito de uma banda e escuto apenas uma música eu fico com vontade de mais. Qual o futuro da Eddie agora com seu trabalho solo? A Eddie continua e vou me dividir entre os dois projetos. Depende da demanda. Vou dar uma atenção a esse trabalho. É um presente que estou me dando. Perdi meu pai ano passado vendi o carro que ele me deixou — sou um pedestre assumido. Então estou mixando em Nova York e, embora não esteja gastando muito em comparação aos números da indústria fonográfica, estou fazendo um trabalho independente com qualidade. Com pessoas que escolhi a dedo por conta da energia da pessoa. É uma realização, um prazer mesmo. Já tenho clipe produzido pelo Gomes, grafiteiro daqui de São Paulo. Estamos experimentando formatos.

Você mantem mesmo o espírito punk… É uma busca de tentar algo diferente. O tempo inteiro eu tentei fugir dos formatos da indústria. Sempre gostei de me envolver com todas as fases de um álbum porque, pra mim, é um conceito que precisa ter unidade. A gente não trabalha nas avenidas das indústrias fonográficas. A gente trabalha nas ruelas, procurando atalhos, comendo pela beirada. Eu entro nas avenidas também, mas não dependo delas.

Entrevista originalmente publicada no site da revista Trip.

A mais antiga gravação da voz humana

13/03/2014 at 14:22

Que paradoxo: Édouard-Léon Scott de Martinville, empresário gráfico e vendedor de livros, foi o primeiro ser humano a gravar o som da sua voz. Ao menos, até onde se tem notícia.

O feito aconteceu com um fonoautógrafo, aparelho inventado pelo monsieur Scott. O treco simulava um ouvido, bem como muitos aparelhos de som atuais. Um cone captava ondas sonoras que rebatiam numa membrana presa a uma agulha. Ela desenhava as ondas em uma folha de papel carbono. Uma representação gráfica do som, enfim.

O princípio, encontrado nos sulcos dos discos de vinil, também foi usado por Thomas Edison.nAcontece que, em vez de uma frágil folha com fuligem, o norte-americano usou uma folha de liga de alumínio. A mudança de material permitiu que o som gravado fosse reproduzido. Aí o francês ficou para trás.

Sem os louros da popularidade, ele leva os louros do pioneirismo. Só em 2008 os arqueólogos do som do FirstSounds conseguiram reproduzir o som. Segundo eles, o francês cantarola a cantiga francesa “Au clair de la lune”.

A qualidade do áudio é horrível e mal dá para entender o que se ouve como uma canção de verdade, mas isso não tira a importância do arquivo. Mais do que a compreensão da gravação como um possibilidade de pouco mais de um século, escutar esse som equivale a olhar para as estrelas, cuja luz passageira vem de um passado distante. A diferença nesse caso fica na relevância da imagem. Enquanto o mundo se abarrota delas desde que inventaram uma câmera — a primeira foto já feita ilustra o texto –, sons se perdem bem antes de o homem começar a pintar.

Escuta Só #7 – Beach House, SBTRKT, Metronomy, Ellie Goulding, Bonobo, La Femme, Panda Bear

12/03/2014 at 12:32

Acorda pra cuspir. E ouvir.

Vinyl Sleeping

Beach House – Saturn Song

De entrada, a novidade do Beach House. Menos shoegaze que de costume, o trio norte-americano caminha numa paisagem sonora de outro planeta. Saturno, quem sabe, deve soar na mesma frequência de sintonia fina da banda de notas mais ecoadas que tocadas.

Metronomy – Love Letters (Soulwax Remix)

Ainda no sistema solar do espacial clipe “I’m Aquarius”,  o Metronomy encontra o Soulwax. Na mão dos belgas, a faixa-título do novo álbum, “Love Letters”, ganha corpo para pista sem soar agressiva aos moldes dos seus experimentos disco punk.

SBTRKT – Hold the Line (Transitions EP)

Parando na Terra, o marciano SBTRKT desembarcou logo seis faixas em um novo EP. Embora mais extraterrestre que antes, o lançamento pode soar datado. Na vanguarda, o britânico chafurda nos batidas sem precisão de aparecer no Majestic sob a tag #hiphop. Na retaguarda, ele abusa dos glitches e contratempos pontuando camas graves — chega a lembrar caras como Baths. Animação, enfim, que o resumo da ópera eletrônica é bom.

Ellie Goulding – Life Round Here (feat. Angel Haze)

Mais palatável que os comparsas, menos digerível que antes, Ellie Goulding volta os ouvidos ao downtempo e larga mão da barulheira do Calvin Harris. A versão dela para o James Blake é um lado B que não fará tanto sucesso como faixas como “I Need Your Love”, mas deixa espiar um lado mais refinado e autoral da moça.

Bonobo – First Fires (feat. Grey Reverend) (Maya Jane Coles Remix)

Enquanto não volta aos trabalhos, Bonobo é visitado por camaradas como Maya Jane Coles. A moça rearranjou a faixa do britânico como se fosse uma de suas criações: sombria, passa às margens do deep house sem destaque às marcações.

La Femme – Amour Dans Le Motu

Quem reaparece por aqui também são os franceses do La Femme. A receita de psicodelia decadente, surf music obscuro e surrealismo steampunk continua o crème de la crème. Teclados e sintetizadores sinuosos finalizam a fórmula com personalidade. E o clipe é quase uma versão proibidona do clássico Indochine. Talvez se a personagem de Catherine De Neuve usasse LSD em vez de ópio.

Panda Bear – Marijuana Makes My Day

A lista fecha com mais chapação. Dessa vez é o contra-ataque do Panda Bear num novo ode a ela. Parece xamanismo de filme Z. Sabe lá Jah quais os efeitos na produção (da faixa e da brisa).

Daft Prank

11/03/2014 at 21:13

Ao que os ouvidos captam, a faixa do Daft Punk em parceria com Jay-Z é bem fraca. Ao que tudo e todos indicam, a música é realmente dos caras. Novidade nenhuma nessa discussão, especialmente se se tratar de mais uma lorota da rede. O duo francês é especialista em aparecer onde não é chamado.

Na lista abaixo, escrita originalmente para o site da MTV Brasil, elenco sete faixas que diziam ser do Daft Punk, mas não são. Quem sabe essa Computerized também entra na lista.

Vários clones do Daft Punk invadiram a cidade australiana de Wee Waa em maio de 2013. Os robôs tinha cabeça de papelão e quase sempre estavam no corpo de crianças. O truque fez parte de uma ação de lançamento de ‘Random Access Memories’, novo álbum do duo francês.

As versões de mentira do alter ego eletrônico de Guy e Thomas foram planejados pelos próprios. Logo eles que foram vítimas nos últimos dez anos de incontáveis produções falsas. No mundo da música poucos artistas receberam tantas atribuições inexistentes quanto eles.

Do ápice de ‘Discovery’, terceiro álbum do duo, ao novo LP, o Daft Punk chegou a ser vítima até de uma falsa apresentação — em 2009 houve vendas de ingressos para um show que nunca aconteceu em Shangai, na China.

Os fatos ou factóides levantam questões sobre o duo: Qualquer um pode fazer o que eles fazem? O estilo deles não para de ser reproduzido? Afinal, existe alguém de verdade por trás daqueles capacetes de metal ou papelão?

Tire suas conclusões com algumas faixas que contam a recente década da dupla feita por ninguém menos que qualquer pessoa que não seja o Daft Punk.

2001: Discovery Beta
O álbum ‘Discovery’ alçou o Daft Punk ao céu do universo musical. A combinação de house e eletro revista para o novo milênio carregou sonoridades antigas e manobras inovadoras: solos de rock progressivo, samples suingados de disco, modulações vocais, crescendos melódicos, eliminação suscessiva de camadas instrumentais e compassos dançantes. O resultado também trouxe críticas celebradas, prêmios globais e paradas de sucesso.

Ainda no voo no showbiz a dupla estrelou a propaganda de uma famosa marca de roupas norte-americana e o álbum serviu de trilha sonora para a animação ‘Interstella 5555’, lançada em 2003. O filme foi base para todos os clipes do LP. Na MTV, o mais bem sucedido foi o single ‘One More Time’.

Se vídeo ainda não era a febre da rede, a música começava a virar mania. O Daft Punk estreou um serviço online de música no seu site, mas o show acontecia por baixo da oficialidade. No Napster, antigo programa para baixar arquivos, o álbum do duo transitava vagorosamente entre conexões discadas enquanto disputava espaço com um certo ‘Discovery Beta’. O suposto lado B enganou muita gente à época com seis faixas inéditas. Hoje sabe-se que tratam-se de composições de fãs e produtores. Uma das primeiras levas do French Touch, escola-gênero da eletrônica no qual a dupla é mestre.

2004: ‘Call On Me’
No ano seguinte à explosão franco-robótica o duo se dedicava a projetos solos. Guy dava atenção a seu selo, Crydamoure, enquanto Thomas produzia faixas com parceiros como DJ Falcon. Uma das criações foi sobre o sample da canção ‘Valerie’ do cantor Steve Winwood.

Apesar de terem composto-a, os dois não lançaram a faixa que era tocada em sets e apresentações. Assim ela chegou aos ouvidos do selo ‘Ministry of Sound’. A gravadora se interessou pela sua divulgação, mas Thomas e Falcon recusaram o convite da gravadora. Meses depois o DJ Eric Prydz surgiu com ‘Call On Me’, música que usa o mesmo sample dos franceses.

Por mais que pareça, Falcon não considera que houve roubo na história. A música de Prydz guarda diferenças que a colocaram no topo das paradas da época: batidas potentes típicas do eletro house e um clipe pra lá de sensual. Tudo ao estilo de Benni Benassi, outro DJ de sucesso á época. E nos programas de troca de arquivos era possível encontrar a faixa atribuída ao Daft Punk.

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2008: ‘Love’
O Daft Punk permanecia em silêncio. No ano anterior, o duo havia lançado seu primeiro disco ao vivo. Mesmo que não trouxesse grandes novidades sonoras, Thomas e Guy colocavam-se na agenda outra vez com o espetáculo criado pelas suas apresentações. A pirotecnica planejada sobre o maquinário em forma de triângulo seria inspiração para nomes no futuro, de Justice a Deadmou5.

Garotos à época, os artistas e um sem fim de jovens engatinhavam nas redes sociais — o Orkut estourava no Brasil. O e-mail ainda tinha papel essencial na troca de mensagens e arquivos. Assim correu pela mão de de blogueiros de música uma suposta nova faixa de Thomas Bangalter. O fato ocorreu no dia dos namorados do hemisfério norte e a música conquistou os mais afoitos e carentes também pelo nome ‘Love’.

Ledo engano. Apesar de carregar a aura setentista em que o Daft Punk está imergido, a música era composição do produtor e DJ britânico Louis La Roche. Ele logo se eximiu de culpa no boato, mas assumiu o filho rejeitado pelo duo.

2010: ‘Tron’
Os robôs estavam vivos. No ano de 2009 corria à boca pequena que os franceses voltariam a trabalhar com música para o grande público. A convite da Disney eles fariam a trilha da refilmagem de ‘Tron’. O clássico da ficção científica em computação gráfica teria máquinas no comando sonoro.

No afã do retorno aos estúdios vazava uma nova canção do Daft Punk na rede. Ao menos era o que pensavam os que acreditaram na autoria de ‘Fragile’. A música surgiu na rede entre 2009 e 2010. Em pouco tempo ela foi desmentida por sites especializados em música. As revistas sequer noticiaram o fato porque a internet já furava com propriedade a grande mídia.

Embora tenham negado a autoria logo que o som veio à tona, Guy e Thomas usam andamentos velozes, progressões de notas e clímaces potentes filtrados por sintetizadores na sua incursão pelo cinema — sonoridades que também são encontradas em ‘Fragile’.

2012: ‘Renoma Street’
A França não é muito conhecida pelo seu humor, mas sabem fazer graça no hexágono — apelido do país por causa da sua forma geográfica. Aproveitando a iminente volta dos conterrâneos, os jornalistas da revista Tsugi adicionaram uma tal ‘Renoma Street’ em uma de suas listas de junho de 2012.

A faixa atribuída ao Daft Punk precisou de dois dias para ter seu nome espalhado pelos quatro cantos da rede. Quatro dias para alcançar três mil referências no Google. Cinco dias para ganhar vida — não pelas mãos robôs. Dez anos antes o caminho seria inverso. Num mundo de estúdios de quarto e softwares piratas a ordem da cadeia de produção foi subvertida.

O esquema de uma pegadinha, contudo, segue o mesmo. Seis dias após a menção, a Tsugi negou a existência da canção e poupou mais uma esquiva do Daft Punk. Falso. Fake. Faux.

2013: ‘No End’
Conhecida como ‘No End’, a faixa ‘Metal Film Transistor’ surgiu na internet, em algum momento do último março, com a assinatura do duo francês. A crescente ansiedade dos fãs somada às notícias de um novo álbum foram suficiente para ratificar a veracidade da produção.

Outro fator considerável é o diz que me diz sintomático da rede. A velocidade na troca de arquivos e os serviços de streamig colocara o duo nas primeiras fileiras de postagens da blogosfera. A dupla certa, na verdade, era outra.

O duo norte-americano Art-Institute é autor da música, mas não se responsabiliza pelo boato que envolveu o Daft Punk. A desculpa para a confusão reside no uso de vocoders e no clima eletro típicos na obra dos franceses.

2013: ‘Get Lucky’
Em meados de abril a vontade de ouvir os franceses já virava obsessão para alguns. Qualquer um que gostasse um mínimo de música estava sujeito a topar com o frisson do Daft Punk. O lançamento de ‘Random Access Memories’, ao contrário de toda as faixas dessa lista, já era real e tinha data marcada. A reboque surge mais uma série de músicas falsas do duo francês.

A maioria das faixas usa trechos dos anúncios do disco. Uma delas não passa de um vai-e-vem de dez horas com um mísero pedaço do single. Outras são refinadas na combinação de trechos disponíveis. Alguns arriscaram mashups.

O destaque entre tantas é uma versão que ganhou lugar de honra na seleção de uma rádio francesa. Anunciada com pompa e circustância, a ‘Get Lucky’ da Fun Radio é uma colagem que enrola qualquer radialista desatento. A falta de algumas estrofes e o corte brusco no meio da música desvelam uma das últimas farsas envolvendo o Daft Punk.

 

Se o Instagram fosse inventado nos anos 80

07/02/2014 at 19:28

A parte divertida viria depois de fotografar, revelar e preencher uma pequena carta.