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O Bin Laden Está no Brasil e Agora É Funkeiro

05/11/2014 at 23:58

 

Fotos por Anna Mascarenhas

Bin Laden não morreu. Ele não tem barba grande, não usa turbante, nem é islâmico, mas ele tem um séquito fiel, bomba pra cacete por onde passa e fica muquifado em algum lugar de São Paulo. Eu colei no esconderijo desse Bin Laden e posso garantir: ele toca o terror e, em vez de sandália de pastor afegão, ele usa um chinelão de borracha — mas só quando acorda.

“Bin Laden Não Morreu” é o nome da música que transformou o MC Jeeh 2K em MC Bin Laden. Jefferson Cristian dos Santos de Lima tem 20 anos e nasceu na favela da Vila Progresso, Zona Leste de São Paulo, mas ele só fica em casa em dias de folga, quando tem tempo para a namorada ou para a Igreja. Talvez mais famoso entre os leitores do Noisey pelo “Passinho do Faraó”, ele canta funk proibidão há seis anos e nunca largou o evangelho.

“Posso abandonar tudo, mas não abandono Deus por nada”, disse ele durante a entrevista, pouco depois de acordar às 11h de uma sexta-feira. É a hora em que o galo e o pau cantam na KL Produtora, comandada pelo empresário do funkeiro, Emerson Martins. Sem muita cerimônia, ele desperta o bonde do MC depois de uma noite de dois shows e pouco sono.

“Acorda aí que chegou a imprensa!”, fala a chefia. Aos poucos, umas dez pessoas amontoadas em meia dúzia de beliches abrem os olhos sob a mistura densa de suor da correria passada, pó da parede rebocada e cheiro de cobertores jogados. Bin Laden esfrega a cara, senta na cama e me cumprimenta com simpatia, mas ele ainda precisa de um tempo pra se orientar.

Meia hora depois o funkeiro começa a explicar suas músicas com histórias de erva, sequestros e assaltos. “Eu queria cantar proibidão, mas um negócio teatral”, explica. Ele chama seu show de Baile do Afeganistão e seus dançarinos de Iraquianos. “O Bin Laden tinha várias pessoas que andavam com ele. Eles dois ficam assustando a galera”, diz.

Saddam e Salim chegam junto e se posicionam que nem leões de chácara persas ao lado do MC. De vez em quando eles falam um idioma inventado. É uma piada interna do naipe do cabelo e da sobrancelha do Bin Laden, mas esses viraram moda. Preto e branco no estilo Tony Country — vem de Town & Country, marca que usa o Ying Yang nas estampas. É o bem e o mal.

“Nóis é bom, mas não é bombom”, dá a letra o MC. Ainda assim, ele é bem generoso. Se você encostar num show com a cabeça meio-a-meio, talvez ganhe um presente do próprio Bin Laden. Pode ser um relógio ou um boné, ele diz, mas nada que vá te deixar chapado. O funkeiro canta sobre maconha e lança, mas não usa. “Só faço música na brisa dos outros”, conta.

O flow do funkeiro vai rápido na marcação dos cliques de revólver ou explosões de granada. À exceção de músicas como “Lança de Coco” (que parece uma versão dopada do finado “Harlem Shake”), a maioria de suas letras está entre “O Quinto Vigia”, do Ndee Naldinho, e “157 Boladão de AK47″, do MC Frank. Ele não faz ostentação. “Não tinha dinheiro e pensava: a ostentação está me influenciando a gastar o que eu não tenho. Resolvi cantar proibidão”.

Na conversa, Bin Laden lança a real: “O funk se chama favela”. Ele também fala sobre histórias de algumas músicas, apologia a drogas e de seu próximo atentado, marcado para 11 de setembro. Ninguém vai morrer, mas o cara quer parar o mundo com seu novo clipe. Se bobear, vai tocar fora do Brasil. “Só não vou pros Estados Unidos!”, diz ele, enquanto ri do nome.

Achei bem firmeza o clipe de “12 Calibre”. Você que teve a ideia?
MC Bin Laden: Foi. Eu tive a ideia, queria gravar um bagulho diferente. Nem falei com meu empresário. Falei com o menino que faz os vídeos e ele falou que essa ideia era muito louca. Aí fui filmando. Fui dando o peão, fui fazendo naturalmente. Comprei o Carlton, o vinho e foi natural porque não tem mais isso no funk. Acho que as coisas ficaram muito superficiais.

De um tempo pra cá tem muito clipe parecido, do KondZilla, do Tom Produções. Esse clipe é diferente dos clipes de ostentação.
O meu som é puxado mais pela origem do funk. A origem do funk não é ostentação, a origem vem de muito tempo atrás. O funk foi se aprimorando, se revolucionando, e eu não tenho nada contra o funk ostentação, mas pra favela o ostentação é muito pesado. O cara que sai pra trabalhar hoje consegue tirar um salário de R$ 800, R$ 1.000. Pro cara ostentar na balada é muito difícil. Se ele ostenta hoje, amanhã ele já não tem dinheiro, não tem condições de comprar um alimento pra goma dele, não pode comprar uma roupa e às vezes não tem dinheiro nem pra ir no cinema com a namorada porque ostentou no camarote da balada, gastou tudo. Eu sempre fui favelado, não tinha dinheiro e pensava: a ostentação está me influenciando a gastar o que eu não tenho. Eu tive umas ideias e resolvi cantar proibidão. Já cantava há anos e eu não queria parar. Quando eu vim na produtora eu falei que não queria cantar apologia, queria cantar proibidão, um negócio teatral. Que fosse o Bin Laden, mas com seus bonecos no palco, tendo uma história. O show mesmo é entretenimento. Muita gente fala que nas músicas eu falo de maconha, lança, mas eu não estou influenciando o povo a usar. É uma forma de se expressar sobre o que acontece hoje. Na televisão eles mostram um pouco da verdade nas novelas, mas escondem muito. Se eu estou fazendo errado, a TV também está.

Você fala mais de lança, de ganja…
De brisa, de dança. Eu não falo que isso é algo cultural porque se eu disser isso a sociedade não vai aceitar, mas é a verdade, mano. Se você for em todos os fluxos de São Paulo, Brasil afora, os caras vendem lança dessa forma. “Olha o laaança.” Essa parte da música surgiu porque eu colei em São Mateus e tinha um moleque vendendo assim: “olha o lança, quem não bafora não transa”. Achei da hora e pus na música. Virou uma brincadeira também. “Ô, pai! Não tô gripado!/Me dá lança perfume que deixa com pé gelado.” Foi algo mais pra ser brincadeira, mas o povo tem uma ideologia diferente. “Olha o MC querendo influenciar.” Hoje, criança de 11 anos já cresce sabendo o que é droga. Não é a gente que influencia. Eu tenho um irmão de 11 anos e eu falo de drogas pra ele desde os 8, desde os 9. A educação é diferente.

E suas outras músicas. Tem uma com o Kadaffi. Ele é angolano?
Ele é da Angola, sim. Mas a gente ainda não trabalhou essa música, a gente ainda não divulgou. A intenção não é divulgá-la ainda. Ela vai vir como se fosse uma surpresa pro funk. Ele aparecendo e mandando o rap terrorista! A voz do cara é da hora, tio.

Quantas músicas você tem lançadas?
Ao todo acho que 57 músicas. No CD tem 18 músicas, mas como lanço música toda a semana eu tenho na internet umas 20 músicas. Lancei tudo em um ano.

E como você faz as músicas?
No dia a dia mesmo. Estou aqui, surge uma ideia, gravo um áudio e depois começa. Às vezes eu nem escrevo no papel. Gravei a “Bololo Haha” e nunca botei ela no papel. “Lança de Coco” eu nunca escrevi e a “12 Calibre” também não. Escrevi as mais difíceis. “Bin Laden Não Morreu”, “Sequestro da Filha do Coreano”, “Senhor das Armas”, “Madame do Crime”. Essas eu passei pro papel, fiz rima com rima. Eu já sou meio doidão, faço rima de cabeça. Eu fico matutando. O povo acha que eu sou louco e eu só estou aqui pensando. Aí eu chego do nada e falo: “Aí, rapaziada, se liga nessa música”. Tatatatá, vou cantando. E os caras falam: “De onde veio isso?”. Jesus me deu o dom.

E suas músicas giram tudo em torno desse lance de aventura, crime.
Eu não gosto de exaltar o crime porque eu não quero que meu irmão seja influenciado a ser criminoso. Quero que o povo ouça a verdade. Eu sei que se eu falar a verdade, o que rola nos fluxos, eu vou falar pelo Bin Laden. É um personagem. Faço músicas teatrais. Tem uma música que é muito rápida. [Canta “Bin Laden Não Morreu”].

É meio rap essa aí. Você curte?
Curto bastante os Racionais MCs. Hoje eu não tenho tempo pra escutar. Gostava de Ao Cubo também, porque sou evangélico. É difícil falar, mas antes de entrar no funk eu já era evangélico. Cantar a verdade é o que acontece nas ruas. Não canto apologia porque não quero conflito, só quero fazer meu trabalho, ajudar minha família e fazer meu ganha pão. Não quero conflito com ninguém do crime, da política, da rapaziada que anda fardada e faz seu trabalho na rua. Muita gente fala “pô, proibidão!”, mas é um proibidão muito diferente. Saiu no G1 que eu era MC de ostentação, mas não sou. Se eu for cantar ostentação eu vou pra classe A, começo a cantar pra aparecer na televisão, pra ir pra fora do país. Aí mudo até o gênero musical. Vou pra um forró, alguma coisa assim, porque o funk não é isso. Funk pra mim é o que eu canto, que foi cantado muito tempo atrás. Todo mundo esqueceu de cantar isso por causa da televisão.

O que é o funk então?
O funk, na minha opinião, são aqueles moleques que estão na favela jogando bola, alegres, cantando, se divertindo. Não se iludindo pelas mentiras. Como uma criança de favela vai crescer achando que vai ter uma Ferrari? Pô, como o cara vai trabalhar pra ter uma Ferrari? O cara não vai trabalhar pra sustentar a casa, pra ser um pai de família. O funk se chama favela. Várias classes altas conhecem nossa música. O tratamento é igual se você tem ou não tem dinheiro. Todo mundo é igual. E muita gente fala que tem playboy que quer ser igual a favelado. Pra mim, o funk está dentro da favela e não tem outra coisa a se declarar.

E quando você entrou no funk?
Há uns 6 anos, na favela da Vila Progresso. Eu estava lá fazendo umas rimas e o DJ de lá falou pra eu virar MC. Eu cantava debaixo do chuveiro, ficava cantando, teve uma vez que passei uns 40 minutos no banheiro, esqueci até de passar sabonete. Só fiquei cantando. Meu pai chegou falando um monte. E eu tinha outro nome. Era MC Jeeh JK meu nome. Era a mesma coisa. Mas aí eu conheci a KL Produtora e a gente começou a fazer um trabalho diferente. Em menos de um ano aconteceu o que está acontecendo. Acho que ainda não explodi. Sou conhecido e vou lançar três videoclipes até o fim do ano. Mas teve uma época que eu dei uma parada com o funk porque não estava dando muito certo, aí comecei a frequentar muito a igreja evangélica. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

Quando isso?
Tem dois anos. Eu sempre ouvia muito o evangelho, gostava de ouvir as pessoas falarem, gostava do nome Jesus Cristo. Eu comecei a ir no culto, conhecer mais, praticar, comecei a buscar. Quando conheci isso, minha vida estava de cabeça pra baixo e Jesus Cristo deu uma retomada. Ele viu aquilo que eu estava vivendo e deu uma reviravolta. Aconteceram problemas de amizade, falavam de mim coisas que não eram verdade, estava com problema no meu namoro, aconteceu coisa com a minha família e Jesus começou a me abençoar. Posso abandonar tudo, mas não abandono Deus por nada. Muito MC hoje tem o sonho de estourar. Fico pensando: e se ele estourar? No começo ele vai ajudar a família, comprar roupa, mas e depois? Ontem fui fazer um show e um MC falou: “Pô, dá valor a sua carreira. Você não é MC de três meses, você só tem música diferente”. Eu poderia ser assim por causa das drogas, mulheres, bebidas. Se eu chegar na balada, tem muita menina que vai querer ficar comigo não pelo que eu sou, mas pelo status e pelo nome. Antes de me conhecer mesmo. Tô firmão. A mina vai falar que é mó gostosa?! Pode ser Juju Salimeni, Sabrina Sato, quem for, eu tô pouco me importando. Foi ela quem andou comigo a pé? Foi ela quem passou fome comigo?

Você tem namorada?
Tenho. Dou o maior valor a ela. Vou pro terceiro ano. Ela me apoia, tem ciúmes, mas eu sei separar muito. Eu dou muito valor a meus fãs. Pode estar quem estiver aqui com a gente, mas se estiverem três fãs meus eu vou dar atenção a eles. Tem que ir pra outro show e tem fã pra tirar foto eu abro a janela, pulo do carro. A pessoa saiu da casa dela, gastou dinheiro pra me ver, gastou tempo, está lá cansada e não vai conseguir foto? Eu sempre fui fã do MC Tikão e um dia ele tocou em Osasco numa matinê. Eu saí do baile às 23h30. Pedi a Deus pra segurar o último trem e a última perua pra eu chegar em casa. E pra chegar? Eu não tinha o dinheiro da condução. Foi na boca e na conversa. Hoje eu dou muito valor. Tem fã que pinta o cabelo, faz a sobrancelha igual a minha. Até assusta!

Já viu alguém com tatuagem com seu nome ou algo assim?
Eu não gosto muito que façam tatuagem com meu nome porque eu sou muito evangélico e não quero fazer tatuagem. Prefiro que pintem o cabelo, façam uma meia preta e branca, pinte a sobrancelha, dê um estilo diferente. Até gosto de ver tatuagem no corpo dos outros. Em mim mesmo eu não gosto. Muita gente fala que eu tenho que ter tatuagem, que tenho que ser um MC com tatuagem. Não tem que ter nada, tem que cantar.

Você que lançou o estilo Tony Country e a sobrancelha?
Eu que lancei.

[Nessa hora, os dançarinos dele chegam na sala. Um deles fala uma única frase em português antes de assumir o personagem.]

Saddam: Nóis toca o terror no baile!

MC Bin Laden: Eles estão desarmados, mas no baile é com fuzil. Quando a gente lançou o Tony Country muita gente desacreditou, dava risada. “Esse moleque é doidão, tio! Tem coragem de andar na rua assim?” Tenho! Essa é minha marca. Todo mundo vai fazer igual. Até aqui mesmo na produtora falaram. “Venhamos e convenhamos, Bin Laden. Acha que o povo vai querer fazer igual você?” No outro dia meu empresário pintou porque ele acreditou nisso. Ele chegou numa produtora, na Maximo, e os caras falaram que ele estava loucão. Daí ele falou: “Você vai ver meu artista! Todo mundo vai pintar o cabelo que nem ele!”. Eu dou um presente pra todo mundo que tem o cabelo pintado no meu baile. Se eu estou de boné, dou o boné, se estou de relógio, dou o relógio. Nem faço pra ganhar mídia, eu faço para parabenizar meu fã.

E você nasceu onde?
Nasci em SP, sempre morei na Vila Progresso. Depois fui morar na Celso Garcia, num antigo mutirão que tem até hoje lá, e como minha mãe não tinha condições de me criar financeiramente, eu voltei pra Vila Progresso.

Você vai gravar um DVD nessa semana?
Dia 15 de agosto. Vai ser a primeira gravação. Tudo nosso é diferente. Posso adiantar que vai ser gravada uma parte do DVD. Ele vai ser gravado em Sorocaba, na capital, onde tiver fã do Bin Laden. Depois vamos juntar todas as partes. Quero que todo mundo participe do meu DVD, assim como quero meus fãs no meu videoclipe. Eu convido meus fãs. Encosta que vai ter videoclipe. Quero que eles participem. Vou gravar o “Lança de Coco 2″, depois “Bololo Haha” e “Bin Laden Não Morreu”, que vai ser uma mega produção. Vou lançar no dia 11 de setembro. Se prepara que o negócio vai ser… Nossa intenção não é nem parar São Paulo ou o Brasil. É parar o mundo!

E de onde vem essa história de Bin Laden?
Eu tinha essa música do Bin Laden, “Bin Laden Não Morreu”, há mó cota. Resolvi fazer porque não tinha esse vilão. E o funk proibidão é marcado pelos vilões. Tinha o Coringa, o Charada, na minha quebrada tinha o Pinguim. Mas eles não deram continuidade no trabalho. O único que está aí até hoje é o Coringa, que é o Cauã.

Aí você fez a música e mudou o nome?
Eu era MC Jeeh JK, e meu show era sempre pra cima, agitadão. Aí meu empresário falou pra eu mudar de nome. Topei, aceitei a proposta de trabalho deles e mudei o nome. E funcionou.

E Os Iraquianos?
Tem Os Iraquianos e quero que tenha uma menina, a Iraquiana. Eles dois ficam assustando, encenando. O Bin Laden mesmo tinha pessoas que andavam com ele. Muita gente falava que eu tinha que ter também. Aí vieram os bonecos do “Lança de Coco”. Eles viraram os dançarinos, mas aí a gente pensou em fazer o Baile do Afeganistão com os dançarinos do Bin Laden e os dançarinos do Lança de Coco. Aí esses dois aqui viraram os oficiais. Eles estão sofrendo comigo, batalhando comigo.

[Bin Laden fala alguma coisa em um árabe inventado com os dançarinos. Eles respondem e os três racham o bico.]

A gente é muito unido. O Bin Laden não é só o MC, tá ligado? Tem o meu produtor, tem o meu DJ, tem os dançarinos do “Lança de Coco”, tem muita gente. A gente dorme junto aqui na produtora, a gente ensaia, come, bebe, joga videogame junto. Se eu fumasse, fumava junto com eles. A gente é uma família. Somos 15. O Bin Laden não é só eu. Eu não gosto de ganhar pontos sozinho. Todo mundo faz um trabalho para eu chegar no palco. E eu gosto de trabalhar a imagem deles também. Se eu não trabalhar a imagem deles pode parecer que amanhã eu vou pegar outro dançarino, mas não é isso.

Você não fuma mesmo?
Não. Só faço música na brisa dos outros.

E pra fechar, como tem sido a rotina de shows?
Eu estou abençoado. Tenho feito três shows por noite, na média. Vim do Mato Grosso do Sul ontem e vou pra BH dia 22 desse mês. Se eu for pra fora, só não vou pros Estados Unidos, né!?

Matéria originalmente publicada no Noisey.

E dá uma olhada no clipe mais recente do cara. É um épico do funk.

Máquinas na Pista: A Evolução dos Sintetizadores Musicais

29/07/2014 at 14:29

Muita gente adora exaltar a Liverpool dos Beatles, a São Francisco do Jefferson Airplane, a Detroit do Inner City, a Paris de Serge Gainsbourg, a Lagos de Fela Kuti, a Dusseldorf do Kraftwerk, a São Paulo dos Mutantes, a Kingston do Bob Marley, a Recife do Chico Science e Nação Zumbi. Difícil mesmo é ouvir alguém enaltecendo Trumansburg, cidade a que todos esses artistas devem ao menos uma canção. Foi nesse pequeno município norte-americano onde Robert Moog realizou seu invento mais famoso, o Moog, um dos principais atores de uma revolução cultural e tecnológica operada pelos sintetizadores.

“O que aconteceu de especial com o Moog é que ele se tornou popular”, conta o músico e sound designer Paulo Beto. Paulo tem 11 sintetizadores, mas lembra da primeira vez que ouviu uma máquina dessas, aos 12 anos. “Naquela época eu tinha medo de alienígenas e da bomba nuclear, por causa da Guerra Fria. Pensei que fosse alguma dessas coisas!”. Nem uma nem outra, o objeto estranho se chamava Antenna, faixa de 1975 do grupo alemão Kraftwerk.

A banda sempre é mencionada quando o assunto é música eletrônica, mas Paulo afirma que, assim como o Moog, ela não é o primeiro nem único nome relevante quando fala-se de som gerado por circuitos eletrônicos, a chamada síntese sonora. Os experimentos pioneiros com esse princípio datam de fins do século XIX, correndo em paralelo com a invenção do telefone – muito tempo antes do Tomorrowland e de seu séquito fiel a graves estourados. “O Telarmônio é o primeiro aparelho eletrônico em que cada tecla é uma frequência e, por consequência, uma nota”, diz Francisco Velázquez, músico, produtor e DJ.


A estação central do Telarmônio
Conterrâneo e torcedor do Málaga, Francisco cresceu no sul da Espanha, região que desenvolveu sua cena eletrônica à margem da endinheirada Ibiza. No Brasil, ele ministra cursos e oficinas, como o próximo workshop de síntese sonora da Skol Beats Factory, no dia 31/7. A paixão por música o levou a estudar acústica e elétrica, campos que se encontraram em outra grande mudança para o mundo sintético. “O próximo grande salto foi a invenção do oscilador porque ele permitiu um controle de voltagem”, diz Francisco. Para ele, isso determina a criação do sintetizador enquanto instrumento musical.

O desenvolvimento dessa tecnologia na primeira metade do século XX é acompanhado por artistas e pesquisadores das potências capitalistas. Órgãos acadêmicos e midiáticos como o IRCAM, na França, e a NHK, no Japão, apressaram-se em produzir sons para aquilo que em breve seria chamado de eletroacústica. Aos poucos os ruídos ganharam públicos maiores, especialmente quando a intenção era soar artificialmente. “A BBC fazia trilha de ficção científica com recursos eletrônicos”, diz Paulo Beto.


O Anvil FX, de Paulo Beto, em ação. Crédito: Ariel Martini
Ainda assim, o uso desses aparelhos era restrito. Financiamentos estatais mantinham a maquinária grande e pesada e nem todo mundo podia botar a mão nela. Mesmo um filme com orçamento elevado apelava para outros recursos: a música de Forbidden Planet, de 1956, foi inteiramente composta por circuitos eletrônicos criados pelos músicos Bebe e Louis Barron – e Leslie Nielsen ainda não tinha nem cabelo branco.

Nesse mesmo ano, Bob Moog já era um nerd que vivia dos instrumentos que construía. Ele vendia Theremins de fabricação própria e, durante uma conferência, o jovem conheceu o músico Herb Deutsch. A parceria resultou em ideias como adicionar um teclado a um sintetizador, uma interface familiar e reconhecível para a maioria dos artistas. O barateamento de matéria-prima como silício foi o último parafuso de um aparelho acessível que usasse eletrônica para gerar som. Em 1963 nascia o Moog e em 1971 era lançado o primeiro MiniMoog.

Do MiniMoog ao iPod

A diferença entre os aparelhos determinou a popularização do pequeno. Assim como o iPod na virada dos anos 2000, o MiniMoog representava uma grande facilidade em comparação a seu antecessor e seus concorrentes. “Todo mundo se apaixonou porque dava pra carregar ele. É pesado pra caramba, mas pra época era uma maravilha!”, conta PB. E assim como a Apple, a Moog cresceu com a concorrência na cola, como a ARP, processada sob acusação de plágio.

O funcionamento reduzido do equipamento, no entanto, entrou na linha de produção de várias empresas. Em vez de usar uma penca de fios para conectar os osciladores, filtros, envelopes e amplificadores do sintetizador (os módulos), os aparelhos já vinham com essas partes plugadas entre si, isto é, o patch já estava feito. “O primeiro Moog era chamado de modular porque havia uma sequência de módulos para o patch e o MiniMoog já tem esse patch básico”, explica Arthur Joly, produtor, músico e Professor Pardal da RecoHead – e que também marcará presença no Skol Beats Factory, no dia 30/7, junto com o Anvil FX.


Arthur Joly e sua fantástica fábrica de sons eletrônicos. Crédito: Felipe Maia
“Em 2009 eu comecei a pesquisar a história do modular e descobri um kit para montar o próprio bumbo eletrônico. Como eu já tinha um pouco de noção de solda, eu montei meu primeiro bumbo. Depois comprei os outros kits: uma caixa, um tom e um clap. Montei os três, pus numa caixa de madeira e fiz meu primeiro synth”, diz Arthur. Desde então, ele já construiu mais de trinta geringonças musicais para artistas e amigos. A queridinha é a JolyMod1, armário eletrônico que só sai do seu estúdio por uma grana para realizar seu sonho. “Eu vou fazer o maior sintetizador do mundo”.

O título pertence ao TONTO, sintetizador britânico que tem o tamanho de uma Kombi e meia. Célebre pelas medidas, ele também ganhou fama ao ser usado por músicos como Stevie Wonder e Quincy Jones entre os anos 70 e 80. Essa época marca os primeiros encontros de maior alcance entre eletrônica e música popular. No Brasil, músicos como Jorge Antunes e Rodolfo Caeza estreavam em discos de eletroacústica e bandas como 14Bis e Os Mutantes usavam a sonoridade psicodélica dos sintetizadores. “A Rita Lee foi tocar em outro país e saiu daqui levando um teclado com um adesivo do Moog. Ela jogou esse teclado fora e voltou pra cá com um Moog de verdade!”, lembra Paulo Beto.

“A máquina é foda”

Durante esse período também surgiram sintetizadores dedicados como as caixas de ritmo e as baterias eletrônicas, caso da Roland TR-808. Elas cunharam gêneros que ganharam as prateleiras de lojas de discos e tags de MP3. “O techno de Detroit foi feito por gente que não tinha grana com sintetizadores que hoje a gente chama de brinquedos”, conta Pedro Zopelar.  Músico e produtor, ele foi selecionado para a Red Bull Music Academy 2014, residência artística que anualmente reúne artistas da música eletrônica. “Os sintetizadores mudam a linguagem da música. Eles dão a possibilidade de fazer uma apresentação, mesmo com improvisação, usando somente o som gerado por máquinas”, diz.


Pedro Zopelar com sua Analog Four. Crédito: Felipe Maia

Mineiro de Caratinga, o jovem teve seu primeiro contato com sintetizadores quando o MiniMoog já estava na categoria vintage do eBay. Arthur Joly explica: “há uns cinco anos perceberam que esses instrumentos não deveriam ser esquecidos, que eles tem riquezas que não ouvimos nos modelos digitais”. O digital em sua retidão provocou uma ressaca do erro. Zopelar, por exemplo, grava algumas de suas músicas em rolos de fita. “Acho que cada vez mais tem gente mais nova curtindo muito essa estética antiga, de VHS”, diz ele.

A linguagem binária, contudo, se sobrepôs às correntes analógicas. O mercado está repleto de aparelhos baratos cujas ondas sonoras resultam de cálculos ou emuladores de sintetizadores, os VSTs, que podem ser compartilhados em qualquer rede p2p. Para Francisco, a acessibilidade que nem se imaginava quando da invenção do MiniMoog é uma vantagem, mas também um problema. “Tem tanta coisa que tem gente que não sabe o que focar: tem cara com 15 sintetizadores virtuais sem entender nenhum”, diz.

O espanhol acredita que os próximos passos na tecnologia desses instrumentos devem se voltar ao design. “Acho que chegamos num ponto que é complicado ir mais a frente quanto a síntese, mas acho que vamos revolucionar a ergonomia dos objetos”, afirma. Para Zopelar, o futuro da música eletrônica passa por mais performances ao vivo e isso depende de sintetizadores. O músico faz parte do Anvil FX, grupo fundado por Paulo Beto, e sua mais nova traquitana musical resume os últimos avanços no mercado.  “Esse modelo é um híbrido, ele tenta unir o melhor dos mundos analógico e digital”, diz.

Entre as possibilidades dos VSTs e a textura do MiniMoog, entre baterias eletrônicas e caixas de ritmo, entre campos eletromagnéticos e ondas senoidais, Zopelar se diz convicto: “Qualquer lugar em que eu estiver, na onda em que eu estiver, eu estarei fazendo um som. Sou músico acima de tudo”. E quanto aos sintetizadores, sempre sujeitos a perfeição e ao glitch, ele tem outra certeza: “a máquina é foda!”

Matéria originalmente publicada no Motherboard.

Sorteio: um dia do Converse Rubber Tracks Live

28/07/2014 at 12:33

 

CRTL

Converse Rubber Tracks Live apareceu por aqui semana passada. A corrida pelas entradas já rolou, mas há uma repescagem pra quem não descolou ingressos: um sorteio maneiro.

O esquema é simples: 1) Aperte o botão do JÓIA do Facebook (ao lado); 2) Escreva no campo dos comentários qual nome do line-up você quer assistir no festival (abaixo).

Às 15h30 rola o sorteio do par de ingressos. Quem levar, ganha as duas entradas para o dia da banda ou artista escolhida no comentário.

Lembrando que a lista de shows é a seguinte:

30/07 – Chromeo, Classixx, Schoolbell, Godasadog
31/07 – Brand New, Minus The Bear, Vespas Mandarinas, Coyotes
01/08 – Busta Rhymes, Chet Faker, Don L, Nego E
02/08 – Dinosaur Jr., F*cked Up, Single Parents, Churrasco Elétrico
03/08 – Clutch, The Sword, DLC, magueRbeS

Saiu o resultado e o sorteado é o primeiro nome que aparece nessa lista.

Rodolfo Abrantes

24/07/2014 at 21:18

 

Rodolfo Abrantes

Muito se falou sobre essa matéria assim que ela foi ao ar, em junho, pelo site da Trip. As afirmações de Rodolfo suscitaram respostas dos antigos companheiros de banda e, a reboque, uma gritaria contra e a favor do ex-Raimundo se formou.

O detalhe interessante desse perfil é que ele foi completamente autorizado pelo artista, mas, ao contrário do que pode se pensar, ele não foi alterado pelo músico. Embora não costume fazer isso, atendi ao seu pedido para ler o texto e, felizmente, não houve problemas quanto ao que estava escrito.

O texto abaixo é a versão original da matéria, lida e avalizada por Rodolfo.

A fila já vai grande às 19h50. Algumas centenas de jovens, a maioria com menos de vinte e poucos anos, vão se amontoando em frente aos portões fechados do principal auditório da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Eles falam alto. Uns conversam em inglês. “I miss you so much!”. Quem tem pulseirinha de acesso restrito não precisa esperar a abertura oficial. A imprensa convencemos o atarefado estafe a liberar nossa entrada.

No lado de dentro a banda passa o som. Tira grave, sobe agudo, ei, som, ei, som. “Alguém quer alguma coisa?”, grita o técnico de áudio de cima do seu poleiro. “Quero um café!”, brinca Rodolfo Abrantes. Ele está no centro do palco empunhando a guitarra. Ao seu redor, sua banda, cortinas vermelhas, cem lâmpadas em forma de velas e três pessoas orando num canto.

“A gente vai fazer uma parte da adoração, é uma parte do culto”, explica Rodolfo. Ele é um missionário, alguém que, segundo as tradições evangélicas, passa a mensagem de Deus. “A carta não é a minha, eu sou o carteiro”, diz. Aos 41 anos, ele recusa o título de artista que carregou até 2001, ano em que deixou os Raimundos.

“Eu vim de uma cidade projetada, minha família toda tem médicos, era tudo planejado e eu não queria aquilo pra mim”, conta. Rebento da segunda geração roqueira do Distrito Federal, o moleque Rodolfo viu na música a chance de sair do plano piloto a ele imposto. Ao lado de Digão, fundou os Raimundos em 1987 e, em 1994, rumava ao sucesso com o primeiro álbum.

Em pouco tempo ele deixou de ser fã de rockstars para se tornar um deles. Rodava o Brasil na rotina avião-hotel-palco-hotel-avião. Ao lado de bandas como Planet Hemp e Charlie Brown Jr, os Raimundos tocaram o último acorde do rock brasileiro de grandes proporções. Lotavam casas de show, vendiam quilos de CDs e arrepiavam os ouvidos mais carolas com a mistura de riffs velozes e distorcidos, vocabulário calango e histórias de sexo oral, escatalogia e ganja.

O sucesso aumentava e Rodolfo ficava cada vez mais junkie. Maconha era mato. “Eu fumava um e já estava pensando no próximo, cheguei a cheirar e tomava ácido pra caramba”, conta. Para ele, o ápice da fama coincidiu com o fundo do poço. “Minha saúde destruída, perdendo peso, cheio de caroço espalhado pelo corpo: eu me sentia morrendo”.

Rodolfo decidiu que daria fim àquilo logo após a gravação do aclamado álbum MTV Ao Vivo, em junho de 2001. Ele se convertera no começo daquele ano, motivado, num primeiro momento, por Alexandra (então namorada e atual esposa). “Nosso relacionamento estava indo por água abaixo”. A convite dela, evangelistas da periferia de São Paulo foram à sua casa. Anos depois de entrar num puteiro em João Pessoa, o músico encontrava seu Deus.

Homem de fases
Rodolfo conta sua história e sua crença com precisão litúrgica. Embora sempre leia a Bíblia, não menciona passagens com proselitismo pastoreiro. Fala de forma complacente. Sua prosódia em nada lembra os pregadores ufanistas, mas tampouco resgata a língua frenética de músicas como Nêga Jurema, em que cospia duzentas e três palavras em apenas dois minutos.

“Eu tenho 100% de arrependimento”, diz ele quando indagado sobre suas letras na época dos Raimundos. As dezenas de composições feitas durante esse tempo garantem parte de seu orçamento por meio dos direitos autorais, mas ele não toca mais nenhuma dessas músicas.

A maior parte das suas contas é paga pelos seus álbuns de cunho evangélico, assinados com a sigla RABT, e pelas apresentações que faz pelo país. Nesse caso, o pagamento vem como oferta — uma das formas de remuneração instituídas na Bíblia, segundo ele. “Eu saio da minha casa e posso não receber nada”, afirma.

Assim como não enxerga verdade em alguns pastores — “tem pilantra se passando por pastor” –, Rodolfo também não acredita no endinheirado mercado gospel. “Eu não consigo ver Jesus nesse tipo de show porque o povo está aplaudindo o cara que está tocando e a adoração não serve pra ninguém me aplaudir”, diz ele em meio ao barulho que antecede o culto.

“Dia histórico”, “Tua casa, senhor”, “Te sentimos aqui”. Muitas palmas. Já passa das 21h quando os jovens do grupo Dunamis Pockets se reúnem como numa concentração pré-jogo de futebol. O fundador da organização, Felippe Borges, puxa o coro em voz alta em meio a frases desencontradas. Rodolfo mantem a voz baixa, talvez porque vá precisar dali a pouco.

Ao sair da coxia, Felippe invade o palco entoando a pregação como se fosse dono de uma startup também repleta de fieis. Às vezes, ele rima “man” com “amém”. Sua voz se mistura a um estridente exemplar da febre EDM, trilha para os dizeres de amor, paz e união e imagens de skatistas que se revezam no telão.

Sem pompa, Rodolfo toma seu lugar ao centro. Ele é mais um entre lâmpadas incandescentes em forma de vela e sob um holofote de vários lúmens. Sua apresentação sobrepõe o misancene imposto, mas não atrai os olhares da plateia: a maioria das pessoas está de olhos fechados e pouquíssimos celulares estão em mãos.

O missionário Rodolfo sabe que o culto se estende até a meia-noite. Depois, ele grava em um estúdio de São Paulo. A poucos quilômetros dali, em Ribeirão Preto, o restante dos Raimundos tocariam no dia seguinte como parte do João Rock, festival que tenta dar sobrevida ao agonizante rock nacional. Embora ainda converse com seus antigos companheiros de estrada, Rodolfo não conhece a agenda da sua antiga banda.

No seu calendário, esse dia está marcado como volta para casa. Ele mora em Florianópolis e, quando dá tempo surfa na praia logo em frente a sua porta. Cair na água é um dos poucos hábitos que mantem desde a adolescência. Mas sua prioridade é sua missão terrena. Ele não acha que corre o risco de ter uma overdose. Afinal, Deus é veneno? “Não, porque ele não é desse mundo.”

Chet Faker e Classixx no Brasil

18/07/2014 at 14:49

 

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Chet Faker, Busta Rhymes, Classixx e Dinosaur Jr. Esses quatro e mais uns tantos tocam no próximo Converse Rubber Tracks Live, em São Paulo, entre 30 de julho e 3 de agosto.

A seleção dessa vez é mais parruda que na primeira edição do evento, cujo destaque foi o Washed Out já longe da crista do chill wave — por onde anda o Neon Indian?

O australiano, sósia do Amarante, deve ser o ponto alto do festival.

O eletrônico de brisa praiana do duo Classixx também deve valer o ingresso que, aliás, é de graça.

Chromeo e Minus The Bear também tocam no festival. O line-up completo está aqui.

Será só futebol

11/07/2014 at 19:27

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O apito final soou como um silvo agonizante de monitor cardíaco. Faltariam palavras para escrever o aconteceu na partida entre Brasil e Alemanha do dia 8 de julho de 2014. Passadas algumas horas, a rede — que, para alegria de Barbosa, não havia em 1950 — fez seu trabalho. Retumbou a maior derrota da história da Seleção Brasileira sob diversas análises, ideologias, piadas rasas, dramas teatrais e pranchetas táticas.

O tempo, falastrão, dirá quais cronistas ganharão o privilégio da exceção à regra (clara) da história, cujas páginas são dedicadas aos vencedores. Enquanto o calendário não passa para deslumbrar o tamanho da cratera e desanuviar o futuro do pós apocalipse, vale recorrer a Gilberto Freyre e seu olhar aguçado de pena afiada.

O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura. A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo brasileiro de jogar que de um jogador um tanto álgido como Domingos, admirável em seu modo de jogar mas quase sem floreios – os floreios barrocos tão do gosto brasileiro – um critico da argúcia de Mario Filho pode dizer que ele está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado nos entre tropicais. Em moderna linguagem sociológica, na situação de um apolíneo entre dionisíacos. O que não quer dizer que deixe de haver alguma coisa de concentradamente brasileiro no jogo de Domingos como existe alguma coisa de concentradamente brasileiro na literatura de Machado. Apenas há num e noutro um domínio sobre si mesmos que só os clássicos – que são, por definição, apolíneos – possuem de modo absoluto ou quase absoluto, em contraste com os românticos mais livremente criadores. Mas vá alguém estudar a fundo o jogo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas de qualquer modo, dança. (Prefácio de “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho)

A derrota de 7 a 1 foi a derrota da capoeiragem, do samba, do barroco, da literatura, da molecagem, da malandragem e do tal apolíneo-dionisíaco — um gol por vez. Por 90 minutos, o Brasil ruiu frente ao carrilhão germânico, bárbaro e odiosamente polido, pois nem a brecha da ofensa nos foi dada. Da maneira como aconteceu, a derrota nos tirou a folha de identidade colada à primeira página do passaporte com salvo-conduto para qualquer lugar do mundo.

Mas é só futebol. E a capoeiragem, o samba, o barroco, a literatura, a molecagem, malandragem e o tal apolíneo-dionisíaco sobreviverão para reaparecer de tudo quanto é jeito. Muito cedo ou pouco tarde, estarão em novas equipes, times, seleções e, mais importante, peladas, altinhas e jogos de várzea. Com a bola no campo, esses jogadores farão coisas que, de tão simples e belas, serão só futebol.

Não se trata de mística, sebastianismo, catolicismo, espiritismo, pachequismo, scolarismo. É ceticismo do mais racional possível.

Há cem anos o Brasil vive na bicicleta de Leônidas, nos passos falsos de Garrincha, na inteligência de Sócrates, nas firulas de Ronaldinho, na astúcia de Romário, no reinado de Pelé.  Serão precisos pelo menos mais cem anos para que essas coreografias caiam por e pela terra batida dos campinhos. Mais duzentos anos para que símbolos nacionais produzidos, como os bandeirantes do positivismo, tomem espaço de manifestações populares. E mais trocentos anos para que a representação de um povo não se reduza a alguns heróis encarnando um poder mágico em um picadeiro panóptico —  ou só futebol, que nesses últimos cem anos pouco mudou suas regras para se adaptar a atletas cada vez mais sobre-humanos.

No Brasil, ainda será só futebol mesmo que a gestão da santíssima trindade CBF-Cartolagem-FIFA continue a sucatear o esporte com a extrema unção de uma parcela global da imprensa. E como disse uma amiga, quem dirá que foi feio se, daqui a quatro anos, voltarmos a ganhar só com futebol? Como a Argentina pode fazer no domingo, caso vença a Alemanha.

Dirão, com razão, que foi injusto. Não a injustiça agridoce do pior que vence o melhor, mas, sim, a injustiça que se esbalda na estrutura futebolística: um círculo de anciãos que teima em ceder espaço a novos dirigentes, técnicos conservadores e antiquados, contratos cujo retorno financeiro é desigual e questionável, campeonatos com baixíssimo nível competitivo (se muito, disputados),  sub-empregos em times fora das grandes capitais, o esporte disfarçado de salvação messiânica, entre tantos outros que já são sabidos desde que o Brasil é só futebol.

Nessa balança cética, é mais fácil acreditar no sete pintado de Gilberto Freyre que em alguma mudança substancial. Organizações do futebol não dão a mínima satisfação a ninguém. Pragmaticamente, o poder supranacional da FIFA é maior que a ingerência da ONU. Como a revolução é um sonho, que seja um sonho tropical, antropofágico, manguebeat. Mais vale absorver o que há de bom que importar uma panacéia alemã. Idolatrar um modelo internacional pode trazer resultados até piores que a estagnação. Crer nessa solução equivale a dizer que o Brasil não é um país melhor porque não fomos colonizados pelos britânicos.

Mas crer nessas mudanças é utopia. Pouco será feito nos próximos quatro anos. O futebol, para os manda-chuvas, será só futebol. E para quem joga, será só futebol. E de tempo em tempo o Brasil será só futebol. Bêbados, vamos acreditar na vitória, mesmo que as eliminatórias sejam difíceis, mesmo que a Copa América seja vergonhosa, mesmo que ganhemos a Copa das Confederações — vale algo?

Embora fique o carimbo do 7 a 1, nosso passaporte ainda tem as credenciais da capoeiragem de um lance plástico, do samba duma tabelinha, do barroco entre firula e objetividade, da literatura de um novo esquema tático, da molecagem do improviso, da malandragem da catimba e até o tal apolíneo-dionisíaco, coisa de gênio para gênio. Itens que, embora escassos na safra de 2014, dão no pé por aqui.

Blitz + Emicida

26/06/2014 at 23:15

Não deu pros Black Stars. A derrota para Portugal mandou a seleção ganesa de volta a África, mas, pra Gana, o Brasil é logo ao lado. Na suíte All Around the World e Respect Mine (faixa do EP Warm Up, de 2013), o rapper ganês Blitz The Ambassador versa ao lado de Emicida e Kamau sobre os encontros do terceiro mundo.

Seu panafricanismo vai além do continente numa toada sobre células de percussão, metais agudos e guitarras em arpejo. No mesmo dia da desclassificação de Gana, Blitz continua como um dos maiores rappers africanos.

Black Stars Blocs

26/06/2014 at 12:49

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A seleção de Gana deu um nó tático na FIFA.

Como não tinham recebido a premiação pela classificação para a Copa do Mundo, os Estrelas Negras ameaçaram greve: não jogamos contra Portugal pela última rodada da fase de grupos. Sequer cruzaram os braços, a exceção de um treino boicotado, tamanho o poder de barganha que tinham em mãos. Um avião caixa-forte saiu de algum cofre escuso para desembarcar no Brasil com três milhões de dólares em espécie. Numa das cenas mais insólitas dessa Copa, o bicho chegou em Brasília e, com razão, foi escoltado até o hotel dos ganêses.

Se eles fossem metroviários em vésperas da Copa, muita gente ia olhar feio. O Datena ia parar de narrar jogo para voltar correndo pro Brasil Urgente. O tal yellow bloc logo deitaria-lhes a pecha de black stars blocs.

Como são jogadores, conseguiram no máximo arrancar um desagrado da FIFA, por ora. Como o prêmio não será tributado, a Fedération já não pode se gabar de ser a única turma livre de impostos no Brasil. Menos um título corporativo para ela, já que também não deve ser a única a movimentar grandes quantias de dinheiro durante o espaço-tempo Copa. Aliás, sobre dinheiro: embora o valor laureado ao time de Gana seja ultrajante a muita gente (inclusive aos metroviários), a grana nem é tanta perto do soldo do menino Neymar. Nessa história de futebol moderno não tem peladeiro, e sabe-se que o dinheiro fala mais alto que a camisa. O prometido era devido. Como quem devia, temia, a grana pingou.

Com a seleção de Gana não teve Bom Senso FC. Sócrates, da Democracia, e Saldanha, do Comunismo, talvez não gostassem dos fins, mas quem sabe exaltariam os meios dos Black Stars. E se isso não for suficiente para torcer por eles no jogo contra Portugal, ficam aqui mais cinco motivos para torcer por Gana.

Antes deles, vale saber: para chegar às oitavas de final, Gana precisa vencer Portugal e torcer pela derrota dos Estados Unidos para a Alemanha. No fim das contas, também precisa passar os norte-americanos no saldo de gols. Tarefa árdua, mas possível.

Um dos maiores futebolistas da África é ganês. Abedi Pele, nome dado em homenagem ao rei, foi um dos responsáveis por um dos maiores títulos do Olympique de Marseille, a Liga dos Campeões da UEFA de 1992.

- Gana foi eliminada pela mão de Suarez, o vampiro charrua, na Copa da África. Como o uruguaio já provou que seu caráter vale menos que uma cuia de mate da cisplatina, seria mais do que justo ver o time africano recompensado com a classificação para a fase eliminatória. (Loco Abreu continua sendo um mito pela cobrança por cobertura.)

- O time ganês valoriza as raízes do seu país. Nas eliminatórias para esse mundial, os jogadores e a comissão técnica fizeram uma preleção com cânticos tradicionais da terra.

- O povo ganês curte muito futebol. Não que seja diferente de muitos outros países africanos ou latino-americanos (nós todos do sul), mas a empolgação dos caras com o gol contra os Estados Unidos é de por respeito. E isso tudo no Bronx.

- Gana tem uma das cenas musicais mais prolíficas da África. O continente é grande demais, mas Gana consegue resumir nas ruas de Accra o que se passa no lado ocidental da África. Não à toa, Kwame Nkrumah, seu primeiro presidente, foi um dos pioneiros do Pan-Africanismo. Até ele tomar o cargo e o país se transformar em república, Gana seguiu a infeliz cartilha do dominado e foi colonizada por vários países europeus. Conservou centenas de línguas e adicionou o inglês ao léxico. Hoje, é ladeada pela afrancesada Costa do Marfim e pela opulenta Nigéria. Esse encontro sucessivo deságua em formas revistas do hip hop do norte, do suíngue da África francófona e do jazz importado no começo do século XX.

Numa linha do tempo moderna de ponta a ponta, o highlife do Alhaji K.Frimpong and his Cubano Fiestas…

…evolui até o rap do Blitz, the Ambassador…

…e alcança as massas no Afrobeats do Atumpan.

E não para por aí.

 

O franco irmão do Sónar

25/06/2014 at 16:47

Nuit 4 - Marché Gare

O Nuits Sonores é, na lata, o equivalente francês do Sónar. O festival catalão até encontra paralelo no Marsatac, festival que acontece em Marseille, ao dar vitrine para novas experiências sonoras. Mas é como chancela dessas sonoridades que o Sónar e o NS se irmanam, alavancando nomes de pista e SoundCloud a grandes palcos e, no caso francês, resgatando outros tantos.

O festival tem crescido bastante com o passar dos anos, especialmente por causa da buliçosa cena eletrônica francesa que permite uma lista bem cheia para os quatro dias de shows. Desde 2012 as apresentações se espalham pela rival parisiense, a cidade de Lyon, e nos palcos desse ano passou gente como Laurent Garnier, Jackmaster, Motor City Drum Ensemble, Dum Dum Girls, Nina Kraviz, Four Tet e Kraftwerk.

O Darkside também foi escalado para essa edição do festival. O duo toca na trilha do clipe abaixo, um resumo saboroso do crème de la crème brûlée da eletrônica. Assim como Sónar, o Nuits Sonores terá uma versão fora da sua cidade natal ainda esse ano. O festival sai de Lyon e aterrisa em Tanger, Marrocos.

Como é o futebol?

20/06/2014 at 11:30

Now, as many have said, it’s hard to truly appreciate this stuff if you’ve never played before, but if you haven’t, try this. Imagine you’re running as fast as you can. I mean a full-on panting sprint. Now imagine doing something else with your feet at the same time. Seriously, imagine it. It’s hard to wrap your head around the idea, isn’t it? Now imagine there’s another human trying his best to stop you. Imagine that other human is a brawny Brazilian nicknamed Hulk. When you start to see it that way, you realize that soccer isn’t all about the goals. It’s about all the amazing little things that happen along the way.

Além do excelente exercício de imaginação proposto, o trecho acima convida o leitor a jogar futebol ao menos uma vez na vida. A graça é pensar que essa probabilidade norte-americana praticamente inexiste por aqui. Será que há um filho desse solo de mãe gentil que nunca tenha chutado uma bola de futebol?

O texto completo, um resumido guia do estilo “for dummies”, está aqui. Ele foi escrito por Matthew Diffee, cartunista da New Yorker escalado para escrever sobre a Copa do Mundo. Bem capaz que seja um dos poucos da redação que saiba e goste do riscado.

Nota: aparentemente, este blog volta para mais uma temporada.